Tocou o telefone. A secretária atendeu. Paciente novo querendo agendar. Ela informa o valor da consulta.
Geralmente, quando você avisa que a consulta tem um custo e o paciente agenda, ele vem (peraí… não é meio ridículo você ter que AVISAR que cobra pra trabalhar? Enfim).
E quais são as possíveis razões quando ele desiste de agendar?
Uma parte dos dentistas não cobra consulta. Se tem dentista que não cobra, por que ir em um que cobra?
O paciente está fazendo pesquisa de preço, porque esse é o critério dele pra escolher um dentista (não estou julgando, cada um sabe onde “aperta seu calo”).
Se o dentista já cobra só pra “olhar”, imagina pra trabalhar! 🙁
Pode parecer meio contraditório, mas tenho convicção de que, quando o paciente não agenda porque a consulta tem um custo, o dentista não está perdendo o paciente. Com uma única exceção: o dentista que tem como seu diferencial O PREÇO. Se o seu diferencial é outro, como QUALIDADE por exemplo, o cliente do “orçamento grátis” dificilmente será seu paciente. Ele tende a não escolher você.
Por isso, se o seu diferencial não é preço, não tenha medo de cobrar pelo seu trabalho. Não é feio, não é errado… é a coisa mais óbvia do mundo.
Sabe aquela história de escovar os dentes por meia hora antes da consulta com o dentista? Não adianta nada. A gente sabe quando a pessoa tem bons hábitos de higiene. E quando não tem, também.
Quando você abre a boca, o dentista não olha só pros seus dentes. A gente avalia gengiva, mucosa, a língua e outras estruturas anatômicas. Além de fazer um monte perguntas sobre a sua saúde geral, porque nem tudo que o dentista precisa saber está dentro da boca.
Por exemplo, se você tem a gengiva mais esbranquiçada, pode estar com anemia. Se tem gengivite, o problema pode estar além da higienização deficiente: você pode estar estressado, já que no estresse o organismo libera mas cortisol, uma substância ligada à inflamação.
Se você tem xerostomia, que é a dimuição do fluxo salivar, isso pode ter a ver com o uso de antidepressivos e até anti-histamínicos.
Se você anda tendo muita sede, muita fome, vontade constante de fazer xixi, fadiga e perda de peso, pode estar com diabetes. O dentista não trata diabetes, mas vai encaminhar você pra um médico pra tratar.
Doenças autoimunes como o lúpus e a doença de Crohn (uma doença inflamatória intestinal) costumam ter manifestações bucais (geralmente manchas avermelhadas).
A gengivite e a hiperplasia gengival podem ser sintomas precoces de leucemia, por exemplo.
Doenças no coração podem estar associadas a doenças gengivais. Pessoas com problemas periodontais são mais propensas a desenvolver doenças cardíacas.
Em resumo: a boca não é uma entidade separada do corpo: doenças bucais podem causar ou favorecer o desenvolvimento de doenças em outras partes do corpo, assim como doenças sistêmicas podem manifestar-se na boca. Isso, em si, já é razão mais do que suficiente ir ao dentista pelo menos 1 vez por ano. Mesmo que você não tenha nada do que se queixar.
Eu não tinha paciente ontem. Não até as 11:00h, quando minha colega ligou do consultório e me perguntou se eu podia fazer duas avaliações de ortodontia. Sim, eu podia. Eram o pai e o filho e o Espírito Santo amém, ambos queriam saber se precisavam usar aparelho. Já avisei minha colega: “não esqueça de avisá-los que a avaliação custa R$ 30,00”. Assim foi feito, e eles foram agendados para as 14:00h.
DENTISTA cobrar consulta?
Cheguei às 13:45h, depois de deixar o meu filho na escola, especialmente para atendê-los. Dei uma ajeitada nas coisas, me vesti de dentista, separei luvas, material, etc.. Sentei na frente do computador e, em companhia da Internet, fiquei aguardando meus pacientes. Não apareceram. Vamos analisar os possíveis motivos:
Eu, particularmente, acho plausíveis os itens 2 e 3. Realmente, às vezes na hora de sair de casa acontece alguma coisa e atrasa tudo… a aí não dá tempo de chegar na hora agendada. Pode ser, eu posso compreender isso. Mas é pra situações como essa que existe o telefone, não é?! “Doutora, não vou poder ir!”. Não devolveria o tempo que eu perdi, mas seria um resquício de consideração pela minha pessoa. Mas o que eu acho que aconteceu mesmo foi a situação 3…
Bom… se os pacientes não apareceram porque eu disse que cobraria, então isso seria uma razão para eu NÃO COBRAR a avaliação, certo? Parece certo, mas eu não penso assim. Eu acho que esse é mais um motivo pra eu cobrar. Explico.
Geralmente, quando você avisa que a consulta tem um custo e mesmo assim o paciente agenda, ele vem. Claro, existem exceções, vide o caso que eu acabei de relatar. Mas quase sempre essa verdade se aplica. Uma explicação para a falta ao compromisso pode ser “vergonha”. O cara achou chato dizer que não ia agendar depois que soube que seria cobrado. Explica, mas a emenda fica pior que o soneto, né?!
Mas por que o paciente não quer pagar pela consulta? Possíveis razões:
A maioria dos dentistas não cobra consulta. Se tem um monte por aí que não cobra, por que ir em um que cobra?
O paciente está fazendo pesquisa de preço. Se o dentista já cobra só pra olhar, imagina pra trabalhar!
O paciente não conhece o dentista, nem sabe se é “bom”. Vai pagar pela opinião dele por que?
Eu sei que parece meio contraditório, mas tenho convicção de que ontem eu não perdi 2 pacientes porque resolvi cobrar pelo meu trabalho. Eles não seriam meus pacientes, no fim das contas. A maioria das pessoas, e isso é um direito que lhes cabe, vai no dentista (quando não está com dor de dente) pra saber quanto vai gastar num possível tratamento. E, infelizmente, o critério principal de uma boa parte das pessoas é preço. Não julgo isso, cada um sabe onde o seu calo machuca, embora eu ache essa uma forma perigosa de escolher um profissional de saúde. A questão é: certamente, os meus honorários não são os mais baratos da região em que eu trabalho, porque meu diferencial não é esse. Portanto, pra quem procura preço, eu talvez não seja a melhor escolha. E depois que eu comecei a cobrar consulta não achei que o meu número de pacientes decresceu, pelo contrário.
Ontem perdi tempo, e todo dentista sabe que tempo é dinheiro. Mas estou certa de que, se eles tivessem vindo, mesmo não dando continuidade ao tratamento, o meu trabalho, o meu tempo e o meu conhecimento para diagnosticar um problema e propor uma solução estariam pagos. R$ 30,00 não é nada, eu não fico mais rica e nem o paciente mais pobre. É um valor quase simbólico, que significa, pra mim, um compromisso entre as partes. Mas já é um começo.