Tag: saúde pública

  • Odontologia no SUS – Não é “Fantástico”!

    Odontologia no SUS – Não é “Fantástico”!

    Mais uma vez falou-se sobre Odontologia no “Show Da Vida”.

    Na reportagem exibida domingo, dia 9 de novembro, ficou evidenciada a falta de recursos e de acesso à Odontologia no nosso país.

    Grande parte da população nunca foi ao dentista nem possui kits de higiene oral, mesmo o serviço sendo oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Aliás, muitas pessoas não sabem que tem direito ao tratamento odontológico na rede pública e, quando dão início, muitos pacientes não terminam os procedimentos.

    odonto sus
    A matéria mostrou também a utilização do consultório odontológico de uma determinada unidade de saúde como sala de repouso para os funcionários do posto. A justificativa foi que só acontecia atendimento no período da manhã naquele posto e que no período da tarde o consultório não era utilizado. E, também, a fila de espera para atendimento, onde pacientes agendados há mais de um ano não deram início ao tratamento odontológico.

    Eu trabalhei em PSF e convivi com a realidade da Odontologia no sistema público de saúde.

    Peço aos colegas que prestam serviços no SUS que se manifestem nesse post e relatem seu dia a dia e suas dificuldades, pois sabemos que as mídias sociais, atualmente, são excelentes instrumentos de debate, denúncia e compartilhamento de informações.

    É muito difícil atender no SUS. Quando cheguei à unidade de saúde, percebi que a Odontologia que eu aprendi na faculdade não se aplicava àquela realidade. Faltavam materiais, os equipamentos eram antigos e muitos não funcionavam, o consultório não tinha ar condicionado, paredes mofadas, falta de auxiliares, deficiência de instrumental e uma demanda muito grande de gente esperando por tratamento.
    Lembro que eu tinha que fazer uma lista com os materiais que eu precisava e que ela deveria ser entregue à gerente da unidade de saúde para que fosse encaminhado meu pedido para o centro odontológico. Como demorava pra que meu pedido chegasse ao CEO, eu mesma o levava e voltava com os materiais na Unidade de Saúde.

    Eu trabalhei numa região bem populosa, composta por cinco microáreas, num bairro de Resende. A lista de espera para atendimento era grande e como o posto ficava no centro do bairro, os pacientes dos locais muito afastados não conseguiam vaga no agendamento.

    Vendo a dificuldade da população, resolvi abrir 20 vagas por área para atendimento. Num caderno eu anotava o nome dos 20 pacientes de cada área, totalizando 100 agendamentos, e para acelerar a resolução do problema bucal das pessoas, eu entrei em acordo com a equipe e ficava 100% do meu tempo dentro do consultório. Como era no esquema de PSF, eu pedi que as agentes comunitárias da unidade me avisassem sobre os pacientes acamados que precisavam de atendimento domiciliar para atendimento de urgência. E, também, avisei nas escolas que os trabalhos estariam suspensos até que a demanda fosse atendida. Sei que deixei de cumprir com minha “função” no PSF, mas eu não conseguia me imaginar fora do consultório, fazendo visita e oferecendo palestra nas escolas enquanto tinham pacientes com dor e muitos outros à espera de tratamento há anos.

    No fim, em dois anos nessa Unidade, eu consegui dar conta da população. Esse agendamento segmentado proporcionou o acesso da Odontologia a todos os moradores e eu consegui fazer mais agendamentos por ano, pois a cada micro área terminada uma nova marcação era iniciada. A fila “andou”, os pacientes não tinham que dormir na fila e eu senti que as coisas melhoraram na Unidade de saúde.
    O que ficou bem claro pra mim na reportagem de ontem é que não há investimento suficiente na Odontologia no SUS. Os profissionais são mal remunerados, poucos são os municípios que preenchem o quadro de profissionais para atendimento da população e que nem todos os consultórios contam com a estrutura exigida para atendimento.

    Cabe aos nossos colegas relatar os problemas e encaminhar as dificuldades às Secretarias de Saúde bem como ao Ministério da Saúde, para que as medidas necessárias sejam tomadas.

    E você, COLEGA, qual a sua realidade no consultório público?


  • Diva no SUS: Verão na Ilha da Magia

    Diva no SUS: Verão na Ilha da Magia

    Florianópolis é meu destino favorito no verão, e de muitas outras pessoas. Mas dependendo da região que você escolhe pra veranear precisa de um kit de primeiros socorros gigante pra dar conta de eventuais emergências, já que os postos de saúde, UPAs e hospitais não estão prontos pra atender o veranista em temporada de movimento intenso, como no Carnaval por exemplo. Esse texto é do meu namorado Paulo Resende e é um relato perfeito sobre a infra-estrutura precária que a saúde encontra-se em Santa Catarina no verão. Se tá assim agora, imagina na COPA…

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    A Ilha da Magia #sqn

    Florianópolis já foi sinônimo de praias paradisíacas, diversão, lazer e bons serviços. Hoje, a Ilha tem chamado a atenção pelo trânsito infernal, pela poluição, pela falta de água e de energia elétrica, e pelo descaso com a saúde dos turistas.

    Estive nas praias do Norte da Ilha no final de 2013 e início de 2014 e dei sorte. Não faltou energia elétrica por muito tempo na praia de Ponta das Canas e o condomínio no qual aluguei um apartamento comprava água dos caminhões pipa diariamente. Segundo o síndico, o valor pago por um caminhão com 20mil litros de água, que normalmente custava cerca de R$ 600,00, chegava a custar R$ 1.800,00 no final do ano.

    O presidente da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento, Dalírio Beber, em entrevista à jornalista Joice Bacelo, do Diário Catarinense (em 3.1.2014), apontou o excesso de turistas como causa do problema na falta de abastecimento de água. Abaixo, segue trecho da entrevista:

     

    DC – Todo o ano, com a vinda dos turistas, sabe-se que a população vai triplicar. Ainda assim a Casan continua sendo surpreendida?

    Beber – Não existe nada no mundo que você não resolva com dinheiro. Somente a morte, o resto se resolve. Resta saber se estes investimentos todos serão suportados pela população residente. Ou seja, se criarmos mecanismos para atender exclusivamente o período de pico, alguém vai ter que amortizar isso e hoje quem paga a conta é o usuário do sistema. Nós temos também que ter a compreensão de que nem sempre tivemos esse fluxo aqui, até mesmo com dificuldade do abastecimento de energia elétrica – que desequilibrou o sistema. O problema existe e nós temos que concentrar esforços em busca de soluções, para que sejam pelo menos minimizados.

    DC – Quanto seria necessário para que o sistema de abastecimento funcionasse plenamente? 

    Beber – Não tenho bola de cristal para te dizer o que seria necessário de recursos para resolver o problema. Nós temos hoje um estudo de concepção para captar água do Rio Tijucas e trazer esta água para abastecer Florianópolis, especialmente o norte da Ilha. É uma previsão de R$ 295 milhões, já com uma adutora. Este é um número que temos hoje na mão.

    Matéria disponível em http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2014/01/nao-adianta-dizer-que-vai-ter-solucao-imediata-diz-presidente-da-casan-sobre-falta-de-agua-4380229.html

    A pergunta que deve ser respondida, portanto, é: A população residente no Norte da Ilha quer pagar a conta para que a CASAN esteja preparada para suprir o aumento do consumo de água, em época de temporada? Deixa eu consultar aqui a minha bola de cristal: NÃO! É óbvio que a população não quer pagar mais! Diz o presidente da Casan: “[…] alguém vai ter que amortizar isso […]”. Que tal o Governo do Estado? A Secretaria de Estado da Infraestrutura? A Secretaria de Estado do Planejamento? Ou então, que tal a Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte?

     

    Falando em Secretaria de Estado, aqui vai um alô para a Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina: O estado de saúde dessa Secretaria vai de mal a pior.

    Estive na Praia do Matadeiro, sul da Ilha, durante o carnaval desse ano. Essa praia tem acesso somente por trilha. São 10-15 minutos de caminhada a partir da Praia da Armação. O lugar é muito bonito, de natureza exuberante. Compensa cada passo na trilha carregado de bagagem. Porém, não foi a beleza da praia que me chamou a atenção nesse carnaval, mas o fato de os Postos de Saúde das praias do sul estarem “fechados para o feriadão”.

    Acidentes acontecem o ano todo, no Carnaval… deixa eu consultar a minha bola de cristal… devem ocorrer em maior número. Seja pela combinação de álcool e direção, álcool e imprudência, álcool e banho de mar, ou por qualquer outra situação que não necessariamente envolva álcool, como pisar num prego enferrujado (que foi o caso do meu primo na última segunda-feira, dia 3), numa praia com acesso somente por trilha, acidentes podem ocorrer com maior probabilidade e dar feriadão para os funcionários do Posto de Saúde em época de temporada, quando o número de turistas é o dobro ou o triplo do número de residentes, não parece uma boa ideia. Os serviços de pronto-atendimento são mais do que necessários exatamente nessa época do ano.

    Não bastando a falta do serviço próximo, a Unidade de Pronto Atendimento do Sul da Ilha não possuía a vacina anti-tetânica. Há! Parece piada! Mas não é.

    A atendente chegou a dizer que não adiantava tomar a vacina, pois ela é preventiva e não faria efeito após o acidente, que meu primo “deveria ter tomado a vacina antes”. Eu tive que explicar para a distinta senhora que fazia o atendimento, que acidentes são acidentes exatamente por não ser possível prevê-los. Meu primo sofre do mesmo mal do presidente da CASAN, ele não tem bola de cristal. Enfim, fomos informados que era necessário um encaminhamento para irmos até o Hospital Nereu Ramos (em Florianópolis) e que deveríamos aguardar o cirurgião chegar. Aguarda, aguarda (40min), e meu primo é chamado. Para a minha surpresa, ele sai da sala sem papel nenhum na mão. Foi atendido por uma outra pessoa, que não o cirurgião, e foi informado de que não seria necessário o encaminhamento. Sequer olharam o pé dele.

    Chegando ao Hospital, e após aguardar mais 30 minutos pelo “rapaz que preenche a ficha” voltar do almoço, e pela “moça que atende” também voltar do almoço (mais 30min), finalmente conseguimos sair de lá com meu primo devidamente vacinado. Os atendimentos até que não demoraram, mas a falta do “pronto atendimento” é impressionante e dá uma sensação de fragilidade e medo.

    Moral da história: se você vai passar alguns dias entre dezembro e março em Florianópolis, seja no Sul ou no Norte, leve uma caixa d’água no reboque, certifique-se que todas as suas vacinas estejam em dia, evite caminhar de pés descalços e reze para não sofrer acidentes durante sua estadia. De preferência, passe na lojinha das bolas de cristal e compre uma antes de viajar!

     

    Seria isso descaso na saúde, despreparo dos funcionários? Não sei. Mas a COPA tá aí.

    #goDIVAS! GO!

     


  • Caso Clínico: Dente Aberto no SUS

    Caso Clínico: Dente Aberto no SUS

    Uma discussão foi travada ontem de tarde via Twitter, graças ao post da nossa diva Ju Lemes. Adoro essas discussões, muitas opiniões e condutas diferentes aparecem.

    E aí? Deixa aberto?

    Não estão erradas e talvez nem todas certas, mas todas chegam ao mesmo desfecho: a solução do problema do paciente. Cada um com a sua conduta, adequada para o caso, de acordo com o que aprendeu ou convive. O Luiz Rodolfo como plantonista já abordou o tema no blog DicasOdonto brilhantemente, quem quiser conferir clica aqui.


    Tenho pavor daqueles pacientes que chegam no consultório falando mal do dentista anterior: “Aquele dentista fez um rombo no meu dente!” ou então: “Ele mexeu tanto no meu dente que eu tive que segurar a mão dele!” e pior ainda: “Ele só mexeu com o espelhinho no meu dente e doeu, não fez mais nada…”. Não sabemos quais foram as circunstâncias que levaram aquele dentista a tomar determinada conduta.

    Muitos pacientes fazem um tour pelos postos de saúde e até mesmo nos plantões, volta e meia acabam comigo novamente. Me dá vontade de largar um “Bem feito pra ti!” pra aqueles pacientes que reagudizam um processo crônico. Anoto tudo na ficha clínica: medicação prescrita e o tempo solicitado para o retorno. Quem segue as minhas orientações prescritas passa por exodontias indolores e tratamentos de canais tranquilos. Por quê? Eu SEMPRE medico. Prefiro errar por medicar demais do que por de menos. Mas não pensem que isso foi a faculdade que me ensinou e sim 3 anos de Estratégia de Saúde da Família.

    É preciso ser criativo e improvisação pra trabalhar em PSF. Quem não consegue isso pode esquecer: não tem perfil de PSF e vai se frustrar. O que aprendemos na teoria funciona perfeitamente bem quando temos todos os recursos disponíveis – o que não acontece na maioria das vezes no serviço público. Já fiquei muito tempo sem limas endodônticas por exemplo, precisava solucionar os problemas com o que tinha. Foi assim que aprendi a usar o amalgamador: ficando sem ácido para condicionamento por mais de 1 mês! Na prática, porque a academia me disse que não era preciso saber fazer um bom amálgama já que não era mais tão usado nos dias de hoje graças às resinas de alta geração. No meu consultório tudo bem, no PSF são outros 500.

    Por trabalhar 40 horas semanais na atenção primária, sigo uma agenda para atender aos meus pacientes. São agendados 8 pacientes para as manhãs e 5 para tarde. Além disso, são realizados atendimentos de urgência, visitas domiciliares, prevenção na escola, reuniões de equipe e atendimentos realizados por alunos que supervisiono. Encaixa isso tudo numa agenda semanal?

    Entende-se por urgência: dor aguda ou fratura dental. Pré-requisito no PSF. E dor aguda faz com que os pacientes saiam cedo da cama.

    Fico @#$% da cara com aquele paciente que chega às 11:45 com dor e quer ser atendido. Sabe aquele diazinho frio ou com chuva? SEMPRE acontece nesses dias, às 11:45, pacientes relatando que não dormiram a noite toda. E tavam fazendo o que a manhã inteira?

    A população fica mal acostumada. Quer atestado pra manhã inteira. Eu mesma ensinei alguns a fazer o teatro pra conseguir fazer Rx no CAIS sem agendar: Só dizer que estava morreeeeeendo de dor. Se não for um dentista o examinador, médico, enfermeira, técnicos, todos caem na estória. Aí o culpado é o dentista malvado que medicou sem instrumentar. Vamos combinar né?

    Enfim, o que estou querendo dizer é que não podemos julgar a atitude de um colega pelo que o paciente diz na maioria das vezes. Cada um tem a sua conduta, e ambas chegam a uma solução de maneiras diferente, depende do que o paciente vai fazer também.

    O caso da foto acima apareceu ontem de tarde, durante nosso embate via Twitter. A minha conduta nesse caso da foto ali em cima foi:

    *realizar teste de percursão vertical;
    *pressão digital na região de fundo de sulco;
    *secar a área aberta para verificar.

    O que eu encontrei:

    *dor à percursão vertical e palpação;
    *mobilidade leve;
    *lesão de furca;
    *ausência de exudato.

    A minha conduta terapêutica:

    *Prescrição de Azitromicina e Ibuprofeno;
    *Retorno do paciente para exodontia no 2 dia de medicação;
    *Deixei o dente aberto.

    Conclusão:

    *Resolvi o problema de dor do paciente, e quando for realizar a exodontia ele não estará mais sentindo dor à percurssão – logo, esta será realizada mais rapidamente e sem o sofrimento do paciente, visto que só tenho lidocaína para anestesia.
    *Não fechei o dente porque mais inflamado/infeccionado que está não vai ficar;
    *O paciente voltará para realizar outros procedimentos, visto que não houve sofrimento para a exodontia.

    O que pode acontecer:

    1) Ele volta no 2º dia de medicação e a exodontia e sutura são realizados tranquilamente, sendo prescrito apenas paracetamol se dor.
    2) Vai passar a dor e ele vai esquecer de voltar. Vai voltar daqui 3 meses com o rosto inchado e um abcesso do tamanho de uma laranja, sem conseguir abrir o olho (é o que sempre falo pra eles voltarem).
    3) Vai aumentar a resistência bacteriana e ele nunca mais vai poder tomar azitromicina!! MWAAAAA! Menos né galera! Menos! 😉

    E que venham as pedradas! =D

    #goDIVAS! GO!


  • Emergências no SUS

    Emergências no SUS

    A Saúde Bucal Levada a Sério?

    Semana passada, no Twitter, um assunto tomou conta da minha timeline e da de outros colegas dentistas – o atendimento do paciente usuário do Sistema Único de Saúde! O assunto ficou tão “bom”, que nos reunimos no MSN e fizemos um Odontochat, sério, discutindo sobre o sistema. Eis que hoje de manhã, minha primeira paciente era uma emergência. Quer saber o que houve?


    Na quinta-feira passada essa paciente compareceu ao consultório, queixando-se de dor. Como ela não havia disponibilidade de horário para ser atendida naquele momento, pediu que a agendasse para hoje, no primeiro horário. A agenda estava cheia, logo a encaixei meia hora antes do início normal dos meus atendimentos.

    Cheguei ao consultório e a paciente me informou que na quinta (dia que ela compareceu ao consultório), procurou o atendimento odontológico no Hospital de Emergência da cidade, pois ela sentia muita dor.

    Relatou que o colega que a atendeu apenas “deu um ventinho” (SIC) no dente dela e a medicou com Amoxicilina, Diclofenaco e Paracetamol, alegando que o dente precisava de tratamento de canal. O antibiótico e o antiinflamatório foram administrados via parentereal (injeções) e a paciente foi dispensada, com o dente aberto.

    Bom, a meu ver, o paciente que comparece à noite, num atendimento de emergência, não está de brincadeira. As pessoas conseguem dormir com dor de cabeça e com cólica, por exemplo. Mas, dificilmente, consegue-se dormir com dor de dente. Aliás, quando eu trabalhava no PSF, sempre comentava com a equipe: o paciente que chega à Unidade de Saúde antes da equipe, relatando dor, realmente está com dor. O cuidado precisa ser redobrado, porque ninguém acorda antes do galo cantar à toa!

    Não entendi o motivo da prescrição do antibiótico, já que não havia edema. O elemento estava aberto e o procedimento que deveria ser realizado não demoraria 20 minutos – abertura + irrigação/instrumentação do canal + tricresolformalina + curativo com OZE. Qual o mistério nisso? Pra que bombardear a paciente de medicação sendo que a intervenção clínica resolveria o problema dela? E outra, além da administração excessiva de medicamentos, a falta de orientação. Ela chegou aqui do mesmo jeito que compareceu ao atendimento público – dente aberto.

    Era exatamente sobre isso que falávamos no MSN.

    Até que ponto ocupar um cargo público na Saúde é comodismo/segurança e quantos são os profissionais realmente capacitados e engajados com a causa da população (carente) desse país? Será que o município dispõe da quantidade necessária de profissionais que realmente trabalham ou as Prefeituras virarm cabides de empregos? As equipes de saúde estão completas? A demanda de pacientes é atendida? E, o mais importante, atendida com dignidade e respeito?

    Para ocupar um cargo público, sabemos que “Concurso” nem sempre é necessário. Em cidades pequenas, esquemas de conxavos e favores políticos fazem um profissional ser contratado para atender à população. Se ele se enquadra às necessidades do trabalho, são outros 500…

    Alguns municípios contam com a capacitação do profissional e o incentivo ao curso de pós graduação em Saúde Pública, caso que ocorre no município de Paty do Alferes / RJ.

    A questão é que, além da falta de preparo (ou vontade de trabalhar), geram vários problemas: reclamações por parte dos pacientes, prescrição errada de medicação, uso indiscriminado de antibióticos e uma bola de neve se forma, porque os problemas não são solucionados. A sujeira é colocada em baixo do tapete.

    Sendo o SUS Universal, por que esse tipo de descaso na Saúde?

    Como resolver isso? Sinceramente, não imagino.

    Só penso que, se não está apto para ficar “in loco” num Hospital que é referência de atendimento para vários municípios vizinhos, saia. Melhor do que ficar aí… Dando injeção nas pessoas e mandando pra casa dormir.


  • Falando em SUS: Era uma vez, uma Cidade Qualquer…

    Em agradecimento ao convite para postar no OrtoBlog pedi ao Neto Miná que assim como eu é um entusiasta no SUS e nem se formou ainda escrever um texto para o nosso lindo blog rosa. Me caiu os butiá do bolso quando abri o arquivo em anexo no meu e-mail, vale muuuuuito a leitura!

    Espero que entusiastas do SUS, dentistas ou apenas como cidadãos brasileiros todos façam essa reflexão. O texto tá ótimo!!!

    #goDIVAS! GO!

    “Antes de mais nada, as apresentações: Sou Neto Miná, acadêmico do 6º semestre de odontologia na Universidade Paulista – UNIP em São Paulo. OdontoDivo número #3 (pra escrever no odontodivas, tem que ser odontodivo – Pré-requisito) e colaborador do Ortoblog do Leo Augusto. Vez ou outra, faço intercâmbio nos blogs dos amigos. Aproveitando a deixa: muito obrigado pelo convite Marjo.

    Assim como a diva do SUS, sou apaixonado por Saúde Coletiva e Odontopediatria, acho linda a forma como essas duas áreas podem se unir, contribuindo na elaboração de estratégias em comunidades. Porém, terei que deixar a promoção de saúde de lado para realizar um desabafo. Contarei uma pequena história, a história de uma “CIDADE QUALQUER”, que pode ser comparada com a realidade de muitas cidades Brasil a fora.

    Essa cidade tem alguns mil habitantes, possui em seu serviço publico Centro de Especialidades Odontológicas (CEOs), Laboratórios de Prótese, além de diversos dentistas trabalhando nos PSFs espalhados pela cidade e pela zona rural também. Apresenta programas preventivos com escolares, programa de fluoretação de água, enfim, uma cidade comum, com planejamentos em saúde bucal semelhantes a qualquer cidade bem estruturada. O atendimento ocorre efetivamente, os populares ficam felizes e vivem na mais absoluta harmonia.

    Como toda boa História, essa também possui um conflito:

    Essa cidade conta com alguns investimentos para manter seus atendimentos:
    1- Verba destinada ao CEO (Governo Federal)
    2- Verba destinada a confecção de Próteses Dentárias (Governo Federal)
    3- Verba destinada ao pagamento de funcionários e compra de materiais. (Prefeitura – Secretaria de Saúde)

    Com o passar do tempo os dentistas que trabalhavam nos PSFs começaram a reclamar: faltava material para atender os pacientes e o salário estava atrasado. Um problema simples, e que pode ser resolvido:

    Como os custos de fabricação das próteses são pequenos (quando comparados aos de manutenção de um CEO) e são destinados 100 reais para cada prótese produzida, pode-se utilizar o “lucro” obtido na confecção das próteses para pagar os dentistas. Infelizmente, só essa verba não é suficiente, mas como falta material também nos CEOS e os atendimentos estão paralizados, pode-se utilizar a verba destinada para manutenção e realizar o pagamento dos dentistas e demais funcionários.

    Ufa! Problema solucionado, ou não…

    Resultado: CEO e PSFs sem condições de atender a população e , com o tempo, faltam recursos para produção de próteses. Os dentistas, apesar de pagos, param de trabalhar, apenas alguns poucos dentistas realizam alguns trabalhos preventivos nas comunidades onde atuam.

    Tudo segue na mais absoluta paz na cidade, profissionais pagos, população desassistida e tudo no mais pacato conformismo.

    Eis que os comentários chegam a nível federal, é realizada uma vistoria na cidade.
    Resultado 2: As verbas do CEO e do Laboratório de Próteses são cortadas. Além da falta de atendimento, não há como pagar os dentistas e aqueles poucos dentistas que trabalhavam com ações preventivas, deixam de trabalhar.

    Moral da História:

    Esse é o reflexo da falta de atendimento em Saúde Bucal em diversos municípios em nosso país. Apesar das mudanças ocorridas no Atendimento em Saúde Bucal, dos recursos implantados no país, o atendimento público ainda depende da boa vontade de prefeitos, secretários, vereadores e companhia limitada.

    Outro problema enfrentado no atendimento público são profissionais que não apresentam perfil para trabalhar em serviço publico, que estão limitados as ações individualizadas da odontologia (direcionadas a um paciente especifico) e esquecem que podem trabalhar a odontologia em coletividade. Esquecem que, mesmo sem recurso para realizar ações curativas, eles podem trabalhar como promotor de saúde na comunidade que ele atua, como a Marjo falou brilhantemente em um post especial para o ortoblog sobre O Papel do Dentista nas Estratégias de Saúde da Família.

    Muitas vezes temos uma visão muito limitada do que é o atendimento publico no Brasil, é comum vermos discursos inflamados sobre: “O Brasil é um país de desdentados”, “Não existe politicas públicas para Saúde Bucal”, “Só se fala em saúde Bucal, quando politico distribui dentadura em ano de eleição”. Não é bem por aí.
    Existem politicas públicas em Saúde Bucal, recursos estão sendo implantados em diversas áreas da odontologia, desde programas preventivos até os reabilitadores. Ainda existe descaço do poder publico, afinal são muitas esferas politicas, e os interesses pessoais ainda são prioridade para muitos políticos brasileiros. Mas também, existe descaço da população, que além de não desempenhar seu papel social desconhecer e/ou inutiliza seu poder democrático.

    Alias, falando em poder democrático, nessa “cidade qualquer” os relatórios das Conferencias Municipais de Saúde desaparecem. Ninguém saber se foi redigido, se foi arquivado ou se foi encaminhado para alguém. Ou seja, até quando algum popular se manifesta e exerce sua cidadania, seu direito é vetado pelos interesses, ou desinteresses, de uma minoria mais hierarquizada, digamos assim.

    Enfim, todo essa historinha é pra dizer que o que parece ser algo pequeno, DESCASO NO ACESSO A SAÚDE BUCAL NO SERVISO PÚBLICO DE SAÚDE.

    É reflexo de uma sequencia de erros: é um país com dimensões continentais que dificultam uma maior fiscalização, um melhor gerenciamento dos recursos empregados; falamos do individualismo dos políticos, que só defendem seus interesses pessoais e partidários, sem levar em consideração os populares, mas esquecemos que também estamos inseridos nessa sociedade e fechamos os olhos para os problemas que não nos atingem; são as verbas desviadas para ações de maior visibilidade para promover o governo atual. A problemática está em esferas menores, está em mim, está em você, está na formação social do brasileiro.

    Esse texto seria um desabafo, e criou um aspecto de convite, um convite à reflexão. Reflita um pouco sobre a cidade onde você mora, será que você conhece o atendimento odontológico no serviço público? Sei que você não faz uso desses serviços, mas está envolvido nessas ações:

    1- Você é dentista e trabalha no serviço publico: representante clássico de um cidadão que participa das ações desenvolvidas pelo poder publico. É o serviço publico que paga seu salário, e são suas ações que CONTRIBUEM para o sucesso ou insucesso desse programa.

    2- Você é dentista e trabalha no setor privado: você atende uma demanda que procura o serviço privado, não somente porque procuram um serviço de excelência, mas porque foi desassistida pelo poder publico. Tanto em ações preventivas, quanto em ações curativas.

    3- Você é um cidadão qualquer, que não trabalha na área odontológica: Você custeia os atendimentos do serviço publico e, muitas vezes, não faz uso desse recurso que vem investindo por tanto tempo.

    Pensem um pouco em sua cidade, conheça a realidade dela e posta aqui nos comentários o que vocês descobriram, sua cidade é uma “CIDADE QUALQUER” ou ela tem feito a diferença?

    Antes que eu prolongue esse texto, gostaria de agradecer e retribuir o carinho às meninas divas do Blog. Vida longa ao OdontoDivas e Parabéns pelo ótimo trabalho que vocês vêm realizando.

    Aproveito para convidá-los para participar dos debates sobre Odontologia e Saúde Coletiva no ortoblog, logo mais sairá um post com um resumo de tudo que foi debatido sobre saúde coletiva entre Junho e Agosto no Blog e em minhas andanças pelos Blogs amigos. Contamos com a participação de vocês.”

    E então?? Comentem!!!

    #goDIVAS! GO!