Categoria: OdontoDiva explica

  • A Raiz do Problema (Root Cause)

    A Raiz do Problema (Root Cause)

    Estreou no primeiro dia de 2019 o filme da Netflix A Raiz do Problema (Root Cause), que conta a saga de um homem em busca da razão dos seus vários problemas de saúde, que vão desde o desânimo e a fadiga até à impotência sexual. O filme dirigido por Frazer Bailey – o próprio homem adoentado – já sugere em seu título o motivo das mazelas: o problema está na raiz… mais especificamente na raiz de um dente seu que teve o canal tratado há 10 anos.

    O Diagnóstico

    Durante esse tempo todo nosso herói (!) procurou vários médicos e tentou todo tipo de terapia – algumas bem alternativas -, mas seu corpo não reagia e ele continuava se sentindo doente. Até que um “especialista” (não identifiquei sua área de atuação, por isso as aspas) munido de uma antena Lecher – uma espécie de forquilha de procurar água dos tempos modernos – acabou fazendo o diagnóstico: um dente com tratamento de canal. Bastou uma gotinha de sangue e algumas perguntas feitas à tal antena e voilà. 

    É emocional? NÃO. É um parasita? NÃO. É um tratamento de canal infectado? SIM“. A antena se moveu. A partir daí, com a causa identificada, bastaria se livrar da infecção… portanto, do dente.

    E a ciência, o que diz?

    A busca de Bailey por respostas é legítima. “What’s wrong with me?”, ele se perguntou diversas vezes. Podemos culpá-lo? Mas, cá entre nós… não foi uma investigação lá muito séria. Foi sim uma “caça às bruxas”, com evidente necessidade de provar algo que ele tem certeza que é verdade – ou foi plenamente convencido disso -, porém não tem respaldo na ciência. Não na ciência oficial.

    O embasamento “científico” está no testemunho de alguns médicos e dentistas, os quais citam certas pesquisas. Essas pesquisas podem existir, não tenho razão pra duvidar… existem pesquisas a favor e contra qualquer coisa que se queira, pode procurar. Mas não se define muito bem onde foram publicadas, qual o método, a relevância das amostras, etc. Tudo é muito óbvio, mas apenas para esses poucos esclarecidos. Parte-se do princípio que tais estudos são a prova concreta do que se fala, o elo perdido da Odontologia. E o filme todo obedece essa premissa.

    Certeza: 100%

    As afirmações feitas durante o filme são contundentes, e sempre baseadas em pesquisas onde quase 100% da amostra comprova o que se quer provar. Por exemplo, diz-se que 98% das mulheres com câncer de mama têm tratamento de canal. É um número alarmante, não? Não. Seria o mesmo que dizer que 98% dos brasileiros que são fãs da Anitta gostam de sorvete de chocolate. Pode até ser verdade, mas uma coisa não tem nada a ver com a outra. É preciso provar a correlação entre as duas coisas, o que não se faz em momento algum. A “prova” está apenas no depoimento de alguns médicos que afirmam que problemas crônicos de saúde têm etiologia dentária em quase 100% dos casos. Por quê? Porque eles estão dizendo. E olha, eles dizem de um jeito bem convincente… qualquer desavisado compra a ideia.

    Já sabemos disso faz tempo!

    Há décadas nós dentistas procuramos mostrar a correlação entre a boca e a saúde do organismo e não nos levam muito a sério. A separação histórica entre Medicina e Odontologia é uma temeridade! Aí diz-se durante o filme que “… as escolas de Odontologia veem o boca como um manequim, como se tudo que acontecesse na boca não tivesse qualquer efeito sobre o resto do corpo” e UAU, porque quem diz é um médico de cabelos brancos e uma gravata bonita? Também que “… 70 a 90% dos problemas de saúde têm origem na boca, mas a Odontologia convencional ainda não entendeu isso”.

    Querido leitor, a Odontologia convencional (expressão usada pejorativamente o tempo todo) conhece essa conexão há muitos anos! O fato de que problemas bucais podem complicar a saúde geral de uma pessoa é algo que nem está em discussão! Querem um exemplo bem brasileiro? O Hospital Regional de Ceilândia (HRC) alcançou índice zero de pneumonia associada à ventilação mecânica em pessoas internadas na UTI Adulto. Como? O número é resultado do trabalho, iniciado há aproximadamente seis anos, de integração de cirurgiões-dentistas para cuidar dos pacientes em estado crítico. Não me parece coincidência…

    Enfim.

    Odontologia démodé

    Fica bem clara durante o filme a intenção de separar a Odontologia convencional, essa antiquada, que a gente aprende na faculdade, da Odontologia holística ou biológica, da qual apenas poucos iluminados entendem. É discriminatório. “Dentistas convencionais” não sabem de nada, não têm senso crítico, apenas repetem mecanicamente o que lhes foi ensinado. Todos estão errados, mesmo que milhões de artigos científicos embasem sua conduta. Uma dentista, em depoimento, chega a afirmar que “… nunca fui ensinada na faculdade que a infecção residual de um canal tratado poderia causar mal ao paciente”. Moça, queime o seu diploma, por favor. Gratos.

    A Cura

    Voltando à busca pela Raiz do Problema. Bailey tentou de tudo pra se sentir melhor. Estudou sozinho, leu livros, ouviu podcasts, fez buscas no Google. Submeteu-se à acupuntura, à homeopatia e a outras terapias BEM menos convencionais que essas. Mas seu problema só foi (quase) resolvido quando ele, finalmente, procurou um dentista biológico (um dentista “que sabe o que está fazendo”, como foi definido) e extraiu seu dente tóxico: um dente com canal tratado. Mais de 10 FUCKING YEARS sem ir ao dentista. Aí o colega (não sei se posso chamá-lo assim, porque ele é biológico e eu convencional) faz uma radiografia, descobre uma rarefação óssea periapical e eles decidem juntos extrair o dente com a infecção persistente. Taí uma bela evidência da importância de ir ao dentista periodicamente, caro Bailey!

    Quando o cara achou que estava curado, já começando a se sentir melhor, fez uma reavaliação do seu fluxo de energia e foi informado de que quando extraiu o siso, anos antes, o alvéolo não tinha sido bem curetado (teria ficado ligamento periodontal infectado lá dentro)… resultado: bactéria bloqueando fluxo de energia. Dentista convencional só faz m*. Tem que limpar.

    A explicação dada para a cura de Bailey: toxinas do tratamento de canal (e do ligamento periodontal do siso extraído), responsáveis por manter a infecção, estavam supostamente inativando enzimas do ciclo de Krebs (Nossa Senhora da Bioquímica, rogai por nós!); por consequência, as células não conseguiam fabricar energia e isso levava à fadiga crônica. O dente com canal tratado (OU o siso extraído sem a remoção completa do ligamento periodontal OU um implante de titânio) representa um ponto de bloqueio do fluxo de energia / eletricidade pelo nosso organismo. Basicamente, o que diz a Medicina Tradicional Chinesa.

    Outros casos

    Outros casos de cura pela remoção do bloqueio do fluxo de energia também foram relatados:

    Uma paciente de uns 40 anos tinha implante, foi localmente anestesiada por um médico e melhorou instantaneamente da dor nas costas (ela usava uma bengala pra andar, inclusive). Posteriormente o implante de titânio foi removido e ela ficou definitivamente curada.

    Outra paciente, essa com problemas renais, de 19 anos, foi convencida a extrair um incisivo central com tratamento de canal… e seus rins voltaram a se comportar normalmente. Seu sorriso ganhou uma ponte fixa adesiva.

    Um dentista holístico nos conta que extraiu um terceiro molar ainda na faculdade, e que 30 anos depois desenvolveu uma arritmia cardíaca. O motivo? Uma cavitação, neoformação óssea deficitária supostamente causada pela não remoção de todo o ligamento periodontal infectado do alvéolo. Como ele sabe? Ele apenas sabe, já que pelos terceiros molares passa o meridiano do coração. Feita a “limpeza” do local com remoção de osso e aplicação de ozônio, sauna de infravermelho pra “suar” as toxinas cancerígenas, suplementação alimentar, vitaminas, exposição a campos magnéticos… resolvido. Adeus arritmia.

    Um dentista holístico afirma que curou o câncer de garganta estágio 4 de um paciente extraindo 2 dentes com tratamento de canal e fazendo homeopatia. Um médico homeopata conta que diagnosticou um paciente antes mesmo de tocar nele: “Você tem insônia, fadiga e dores crônicas”. O paciente: “Nossa, como você sabe disso tudo?”. “Sei porque você me disse que tem um tratamento de canal”. Sério.

    Aceita que dói menos!

    Algumas afirmações feitas durante o filme (não foram citadas as fontes):

    “Não existe na Medicina órgão morto que seja mantido”. (ué, mas nem todo tratamento de canal é feito após necrose pulpar… o do Bailey não foi. E a linha de raciocínio do filme se apoia completamente na manutenção de tecido necrótico no organismo, o que não foi o caso)

    “Todos os tratamentos de canal estão infectados. Não há exceção”. (com base em…)

    “A chance de uma pessoa ter câncer (vários tipos) aumenta drasticamente se ela tem tratamento de canal. E a ignorância dos especialistas (leia-se dentistas, mais especificamente endodontistas) sobre esse fato comprovado cientificamente tem matado grande número de pessoas”. 

    “Um estudo mostrou que, de 5000 extrações de sisos, em 4999 havia cavitação porque o dentista não removeu todo o ligamento periodontal do alvéolo. Cavitações causam doenças neurológicas, esclerose múltipla, etc..”  (percebam o alto número de casos. O filme está repleto de informações assim)

    Que?

    Um dos momentos mais WTF se dá quando uma atriz interpretando uma dentista loira gostosa tira as luvas e o gorro, balança seus cabelos e diz: “Seu dentista afirma que você precisa de um tratamento de canal? O que fazer além de sair correndo do consultório?”

    O filme termina com o narrador e personagem principal praticando um milhão de esportes radicais e finalmente conseguindo transar com a moça com quem ele tinha brochado antes porque, vocês sabem… ele tinha um dente com canal tratado. Meninas, já sabem: se o boy falhar…

    Pra acabar…

    Termino este longo texto deixando uma frase dita por Dawn Ewing, dentista biológica, que representa bem o objetivo do filme: retratar o cirurgião-dentista que não compartilha de todas essas ideias como um profissional ultrapassado e mecanicista, desprovido da consciência de que o corpo humano é uma unidade e que suas partes se relacionam. Salvamos dentes, já as pessoas que vêm junto… só se der.

    Como levar a sério esse filme?

    Veja considerações da Associação Americana de Endodontia sobre a segurança e eficácia dos tratamentos endodônticos

    Leia também: Documentário na Netflix – Raiz do Problema – põe a Endodontia em cheque no DicasOdonto


  • A argila como novo dentifrício: uma abordagem clínica

    A argila como novo dentifrício: uma abordagem clínica

    Vamos falar sobre a argila. Branca, verde, rosa, cor de barro, etc. Você quer escovar os dentes com ela, com bicarbonato, com cúrcuma, com água oxigenada 10%, com folha de rúcula? Tudo bem. É um direito seu. Agora vamos aprender um pouquinho de anatomia dental pra não passar vergonha com informações equivocadas adquiridas de fontes sem respaldo científico.

    A camada exterior dos dentes chama-se esmalte. ELA NÃO TEM COR. É IGUAL AO VIDRO POLIDO, TRANSPARENTE. O uso de produtos adstringentes (que possuem granulação na sua formação) podem te dar uma sensação de esmalte mais liso, porém o que acontece é que você está arranhando essa camada dental. “Clareamentos” caseiros não fazem efeito exatamente pois não passam dessa camada de esmalte. De novo o bicarbonato, argila, sal marinho, nenhum desses fazem efeito nem de desinflamação gengival nem de remineralização do esmalte. Aliás, se existisse essa fórmula para remineralização, o número de cáries diminuiria consideravelmente e o patenteador estaria bilionário à essa altura. Quanto à água oxigenada 10 volumes, durante muito tempo foi considerada uma medicação pós-operatória. Porém estudos não tão recentes assim mostram que ela tem um efeito carcinogênico (cancerígeno) na mucosa oral. Então, use seu chá de hortelã se quiser a sensação de frescor, mas JAMAIS USE ÁGUA OXIGENADA DE NOVO.

    Cúrcuma como branqueador: esfregue um pó arenoso e de cor amarela nos dentes e aguarde as manchas, principalmente se você tem algum tipo de resina em dentes da frente.

    A parte que realmente amarela com o consumo de cigarros, bebidas coradas, café, chocolate e até pelo próprio envelhecimento, chama-se DENTINA e fica embaixo do esmalte, cerca de 1,5 a 2 mm dele. Por isso os clareamentos feitos sem supervisão não costumam dar certo. Tem que saber que produto usar, em que concentração usar, se o paciente é alérgico a algum dos compostos, melhorar a questão de sensibilidade que pode ocorrer… Na boa, vá ao dentista. O seu barato pode sair bem, mas bem mais caro mesmo.

    Tecidos dentários

    FONTES CIENTÍFICAS QUE COMPROVAM O QUE FOI DITO ACIMA:

    http://www.scielo.br/pdf/dpress/v13n4/a02v13n4.pdf

    http://www.revista.aborj.org.br/index.php/rbo/article/view/10/12

    http://repositorio.unb.br/handle/10482/17651

    http://www.revistasobrape.com.br/arquivos/set_2009/artigo4.pdf

    https://www5.bahiana.edu.br/index.php/odontologia/article/view/480/415

    http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/?IsisScript=iah/iah.xis&src=google&base=BBO&lang=p&nextAction=lnk&exprSearch=959&indexSearch=ID

    http://cybertesis.unmsm.edu.pe/bitstream/cybertesis/1116/1/Petkova_gm.pdf


  • Referência e contra-referência na Odontologia

    Referência e contra-referência na Odontologia

    Algo importante e fundamental pro bom andamento do nosso trabalho. Mas e aí, quem faz?

    Procurando na internet não encontrei nenhum blog falando sobre isso ainda e de maneira informal. Encontrei os mais diversos artigos científicos sobre o assunto principalmente na área da Saúde Pública, quem quiser é só colocar no google. Aqui vou falar de maneira bem informal sobre como acontece no meu consultório. Talvez eu dê a devida importância pra isso justamente por causa da minha formação sanitarista…

    Costumo encaminhar meus pacientes com uma cartinha, assim fui ensinada na faculdade:

    Encaminhamento
    Encaminhamento

    Não custa sermos cordiais com nossos colegas. Eis que em quase 6 anos de vida profissional, só recebi DUAS contra-referências de colegas a que encaminhei pacientes. Nesse caso da foto, a contra-referência veio assim:

     

    Contra-referência
    Contra-referência

    Esse bom relacionamento é decisivo pra mim na escolha de profissionais a indicar. Foi a primeira contra-referência que recebi, no ano passado. Encaminhei a paciente a um buco maxilo pois era um dente que eu como aperfeiçoada em cirurgia não tinha competência pra tirar, e sim um especialista. É importante reconhecermos nossos limites profissionais, o paciente reconhece isso. Vale a pena divulgar o profissional.
    A segunda contra-referencia recebi há duas semanas, pra um caso de endodontia.

    Contra-referência e referência
    Contra-referência e referência

    Indiquei a paciente a um colega e ela acabou indo em outro, e gostei muito da contra-referência dele. Sempre que encaminhamos um paciente é difícil a gente saber com o que o colega fechou o dente. Eu aprendi que deveria ser com ionômero de vidro, mas quando eu trabalhava no SUS recebia pacientes com obturador temporário, e tinha que adivinhar. Torna-se muito mais fácil seguir com o trabalho assim.

    Ao colega que encaminha o paciente, não custa ser cordial no encaminhamento. Ao profissional especialista que realizou o procedimento, esta é uma boa maneira de receber novos encaminhamentos.

    Não sei como funciona nos outros estados ou o que outras faculdades de odontologia ensinam, mas aqui no sul o sistema de referência e contra-referência funciona bem meia boca para a odontologia. Na área médica e enfermagem sei que um profissional não consegue trabalhar bem se não deixar tudo por escrito.

    Outra coisa que é importante salientar, principalmente pra quem trabalha no SUS ou em clínicas com rotatividade profissional, escrevam por extenso os procedimentos realizados nos pacientes. Faculdades diferentes utilizam abreviações diferentes para procedimentos, fica difícil adivinhar o que um colega que não estudou na ULBRA junto comigo quer dizer quando escreve tudo por siglas. Lá na ULBRA me ensinaram assim: tudo por extenso, por mais que leve tempo. Assim todo mundo sabe o que foi realizado anteriormente.

    E aí, quem vai contra-referenciar de agora em diante? Fica a dica 😉

    #goDIVAS! GO!


  • Enxaguante bucal é coisa séria!

    Enxaguante bucal é coisa séria!

    Dia desses você viu aqui no blog o Jimmy Eduardo mostrando todo o seu talento nasal com um vidro de Listerine. ~JÊNIO~. O uso inusitado do enxaguatório me fez pensar na forma indiscriminada como as pessoas usam enxaguantes bucais por aí… em sua maioria, influenciadas pelos comerciais na TV que afirmam categoricamente que sem o tal bochecho não há higiene bucal completa (isso com o número do CRO de algum dentista que ganhou cachê, bem no cantinho, corroborando essa informação). Mas olha… isso, além de não ser verdade, É MENTIRA :P. Assista uma reportagem muito esclarecedora sobre o tema:

    Embora sejam vendidos sem qualquer tipo de controle, em qualquer farmácia, enxaguantes bucais só devem ser usados com indicação e prescrição do seu cirurgião-dentista. Não interessa o que o comercial na TV disse pra você… enxaguante bucal é coisa séria e não deve ser usado de forma contínua! #ficaadica

    Outros posts que esclarecem o assunto:

    Bochechos: 5 razões para não utilizá-los sem indicação

    Bochechos: quanto mais forte, melhor. Verdade ou mito?


  • OdontoDiva explica #3: Atendimento Odontológico à Gestantes

    OdontoDiva explica #3: Atendimento Odontológico à Gestantes

    Ontem, dia 15 de agosto, além de ser o Dia do Solteiro também foi o Dia da Gestante.

    Dizem as mães que esta é uma fase mágica

    Todos nós leitores do blog sabemos das mudanças físicas e psicológicas das futuras mamães nessa época da vida. E principalmente, sabemos que com um bom acompanhamento médico, é possível identificar e reduzir muitos problemas de saúde que costumam a atingir a mãe e seu bebê. Doenças, infecções ou disfunções podem ser detectadas precocemente e tratadas de forma rápida.

    Mas e a saúde bucal, fica onde?

    Espero que o termo “Pré-Natal Odontológico” esteja se tornando algo comum no se dia a dia colega dentista! Afinal, a saúde bucal da gestante também passa por modificações durante este período, e nós precisamos estar atentos a essas mudanças e qual a melhor época e maneira de tratar.

    Na faculdade a gente tem aquele contato extremamente cauteloso com as gestantes, e muitas vezes os professores nem nos permitem realizar o atendimento. Por ser considerada como um grande tabu – seja pela falta de informação de alguns médicos, gestantes, crenças populares e até por nós mesmos profissionais – muitas gestantes relutam em buscar atendimento odontológico inclusive em casos de odontalgias agudas. Existia ainda a frase “a cada bebê, um dente é perdido” e isso virou algo comum pra se acontecer durante a gestação. Somos nós, DENTISTAS, que devemos mudar esta realidade.

    Como alguns sabem, fui servidora pública da ESF Lava Pés por quase 4 anos. E nesses 4 anos tive muuuuito o que aprender sobre pacientes especiais. Na ESF que eu trabalhava houve uma diminuição gritante do número de gestantes adolescentes ou com gestações não programadas apenas com ações de educação em saúde. Resolvi, nesse contexto, buscar o conhecimento que me faltava para conseguir a mesma coisa com atividades de educação e promoção de saúde bucal, além da prevenção primária e secundária em casos já instalados. Como fiz isso? Através da minha especialização em Saúde Pública, concluída no ano passado.

    Foi o tema da minha monografia e ainda continuará sendo foco das minhas pesquisas por aí (quem sabe no mestrado) “A CRIAÇÃO DE UM PROTOCOLO DE ATENDIMENTO ODONTOLÓGICO A GESTANTES E CRIANÇAS FUNDAMENTADO NA LITERATURA – Programas, Políticas e Estudos.“. Não posso publicar na íntegra aqui pois ainda não publiquei meu trabalho em algum periódico, mas pra quem quiser conferir vou postar um resumo de todo meu trabalho que pode ser facilmente aplicado em ESFs e dentro do nosso próprio consultório privado. Esse trabalho, como diz o título acima, foi baseado numa revisão de literatura a partir de estudos existentes, projetos de universidades ou ONGs e programas do governo. E me deu MUITO trabalho mastigar ele aqui.

     

    PROTOCOLO DE ATENDIMENTO ODONTOLÓGICO

    GESTANTES: Criar uma carteira para a gestante onde serão marcados os encontros. Adicionar nessa carteira informações de saúde bucal de acordo com os trimestres gestacionais.
    1º trimestre: Realizar procedimentos de caráter coletivo e individual.
    Coletivo: Reunir as gestantes de acordo com o dia das consultas pré-natal para orientações.
    • Orientações sobre a ocorrência de alterações fisiológicas de interesse odontológico, comuns do período gestacional;
    • Orientações sobre hábitos alimentares saudáveis a fim de prevenir a cárie dentária;
    • Orientações sobre higiene bucal;
    Individual: na cadeira do dentista.
    • Avaliação da cavidade bucal para detecção de cáries e doenças gengivais;
    • Tratamento preventivo por meio de profilaxia profissional;
    • Tratamento curativo: Remoção de focos infecciosos e agendamento dos tratamentos para cárie e doença periodontal.
    2º trimestre: Continuação dos tratamentos iniciados nas gestantes no 1º trimestre.
    Individual:
    • Exames cínicos regulares para a detecção precoce de alterações da saúde bucal;
    • Tratamento preventivo por meio de profilaxia profissional;
    • Tratamento curativo: Restaurações em ionômero de vidro, raspagens de cálculo, remoção de focos infecciosos. Optar por realizar procedimentos eletivos (como tratamento de canal, restaurações grandes em resina e exodontias) após o nascimento da criança.
    3º trimestre: Realizar procedimentos de caráter coletivo e individual.
    Coletivo: Organizar um grupo de gestantes de acordo com os dias de consulta da unidade de saúde para fornecer orientações.
    • Orientações sobre a importância da amamentação para o desenvolvimento funcional da criança;
    • Orientar sobre hábitos alimentares saudáveis;
    • Orientar sobre hábitos de higiene da mãe e do bebê;
    • Orientar sobre hábitos de sucção – bico, mamadeira.
    Individual: Em caso de urgência.
    • Neutralização de processos inflamatórios, fraturas dentárias, urgências em geral.

    Espero que gostem e que eu tenha ajudado vocês! 😉

    Mais gente já falou sobre atendimento à gestantes, confere no blog do DicasOdonto e do Tio Dentista! 😉

    #goDIVAS! GO!


  • OdontoDiva explica #2: Piercing na língua

    OdontoDiva explica #2: Piercing na língua

    Olá pessoal, venho até vocês hoje como uma ex-usuária de piercing na língua. O porquê disso é esse texto e foto que andam compartilhando no facebook.

    “Para você que está na dúvida se coloca ou não um piercing na língua ou no lábio, segue a nossa dica do porquê NÃO colocá-lo.

    Foto retirada do perfil do facebook de Rosemari Onofre

    Em estudo recente, 99% dos indivíduos portadores de piercing relataram complicações, porém, apenas 7% deles procurou aconselhamento de um profissional da saúde.”

    O restante do texto vocês podem conferir no link da foto.

    Gente, é normal nós dentistas pensarmos assim. Mas essa sou eu, 10 anos atrás, no auge da minha rebeldia.

    Com minha língua recém "furada".

    É óbvio que piercing na língua podem causar todos aqueles problemas lá. Mas isso não é regra!!! Então ou eu faço parte daquele 1% da população que não teve problemas ou eu segui direitinho o que o body piercer da Nova Zelândia me orientou.

    Colocar um piercing não deixa de ser um procedimento cirúrgico. O profissional precisa ser habilitado pra fazer aquilo, precisa de material esterilizado, fazer marcações na língua e usar luvas!

    “A língua é o órgçao muscular relacionado ao paladar que fica localizado na parte ventral da boca da maior parte dos animais vertebrados e que serve para “processar” os alimentos. Participa na formação dos fonemas da fala e é o único músculo voluntário do corpo humano que não fadiga.”

    As marcações na língua são fundamentais para a boa colocação de um piercing. Isso porque a língua tem lugar certo para ser furada, e para não ter problemas de fala normalmente coloca-se inclinado ou na ponta. O meu ficava na ponta.

    Vocês devem perguntar: “Mas por que um piercing na língua?” Gente… não tenho nem segundo furo na orelha, morro de medo de agulhas. Minha barriga sempre foi bonitinha para um piercing no umbigo mas nunca pensei em furar meu umbigo. Quero muito ser mãe, e qualquer cicatriz ali fica horrível de feia.

    O piercing na língua me deixava “rebelde” como eu queria, e ainda assim me mantinha com a aparência delicada e não vulgar que eu queria. E quando eu resolvesse tirar, ninguém a não ser que eu contasse ficaria sabendo, justamente pela ausência de uma cicatriz.

    Na faculdade eu utilizava uma bolinha de plástico transparente, ninguém nunca soube. Passei a faculdade inteira com ele e ainda algum tempo depois de formada. Me formei com 21.

    Mas aí perdeu a graça. A gente muda de pensamento e ser rebelde na fase adulta não combina. Eu não mais gostava quando meu pai se referia a mim como “a minha baixinha é dentista”, e sim que falasse “minha filha é dentista”. Precisava começar por um lugar, e foi pelo piercing.

    Guardo na minha língua uma cicatriz pequena, que nunca deu problema. Nunca estraguei meus dentes com ele também. E não adquiri aquela mania horrorosa de ficar passando o piercing pelos lábios. No dia que coloquei o piercing fui orientada a comprar um anti-séptico bucal, e utilizá-lo sempre depois de cada coisa que colocasse na boca. Antes que vocês pensem besteira, ficar longe de fluídos corporais por dois meses também foi necessário, e isso inclui o beijo.

    Acredito que quem colocar o piercing com um profissional qualificado e tomar os devidos cuidados “pós-operatórios” recomendados, mantendo os hábitos de higiene bucal adequados não vai ter problemas.

    Pra quem quiser colocar um piercing eu não vou dizer que é completamente errado. Vou passar recomendações, para que façam parte daquele 1% que não tem problemas.

    *procure um profissional qualificado. Assim como você procura um dentista qualificado pra arrancar o seu dente do siso vai precisar de um body piercer com um mínimo de conhecimento de anatomia e de técnicas de enfermagem para saber lidar com os instrumentos;

    *o período de cicatrização do piercing na língua varia de 4 a 6 semanas. Nesse tempo, fique longe de fluídos corporais e use anti-séptico bucal SEMPRE! Não em bochecho, mas para enxaguar a boca;

    *procure usar bolinhas de plástico. Se não é possível usar sempre ou não gosta ou não é fácil de encontrar para comprar, utilize na parte de cima da língua. Se você morder acidentalmente o piercing enquanto mastiga vai quebrar a bolinha, e não seu dente;

    *depois que sua língua cicatrizar completamente, procure uma barra menor. Normalmente é colocada uma barra de 30mm no momento da perfuração porque a língua vira um pão de tanto que incha. O ideal é utilizar uma barra de 15mm após 3 meses. A que eu usava era menor ainda, de 10mm. Isso vai evitar os hábitos parafuncionais (aqueles de passar a bolinha entre os dentes ou lábios);

    *capriche sempre na higiene bucal e do piercing. É importante retirar o piercing de vez em quando e limpar beeeem, pois acumula resíduo, assim como nos dentes. Dessa maneira, não ficará resíduos no buraquinho da língua também.

    Enfim, depois de todas essas dicas vocês devem estar perguntando como está minha língua hoje. Pois bem…

    a cicatriz no dorso…

    …e na parte de baixo!

    Não ficou nem de perto parecido com  a foto divulgada pelo facebook!

    Dúvidas esclarecidas? Quem quer dica de como não colocá-lo pode visualizar nesse vídeo aqui. Isso sim é tenso! Inexperiência profissional e cobaia humana, certo. Mas pra vocês verem que o normal são as coisas não darem errado, tem esse outro vídeo aqui.  Colocação perfeita de piercing.

    #goDIVAS! GO!

     

    PS: Este texto não expressa a opinião do blog OdontoDivas e sim a de sua autora, a Marjo Lanzarin.