Coaching para dentistas

É o que eles acham, pelo menos. Bom, deixe-me contar a história toda pra vocês…

Em fevereiro, a moça da Oral-B veio fazer a sua visita periódica ao meu consultório. Deixou, como de costume, uma série de amostras grátis de produtos, entre eles o creme dental Pró-Saúde (aquele azul). Ainda não havia experimentado o produto e, até para poder dar uma opinião caso meus pacientes perguntem, passei a usá-lo na minha higienização bucal diária. Resultado: depois de 3 dias de uso contínuo, minha gengiva e minha mucosa jugal começaram a apresentar descamação e um aspecto áspero e sangrante (vide foto). De cara, associei ao uso da pasta de dentes.

Efeitos do uso contínuo do creme dental

Por motivos óbvios, interrompi o uso. Entrei em contato com o SAC da P&G (fabricante do creme dental) e relatei o ocorrido. Eles me responderam rapidamente com aquele e-mail padrão de desculpas, colocando-se à disposição e fazendo um monte de perguntas, do meu nome ao tamanho do meu sutiã ;). Sinceramente? Fiquei com preguiça de responder e deixei por isso mesmo, que é o que a maioria das pessoas faria nesse caso e a verdadeira intenção daquele monte de perguntas. Porém, em maio recebi uma nova visita da representante da marca no meu consultório. Dessa vez a intenção era me ~~presentear~~ com uma caixinha chiquérrima (mesmo) com 2 novas versões do creme dental Pró-Saúde: o Pró-Saúde Clinical Protection Cuidado da Gengiva e o Pró-Saúde Clinical Protection Sensitive. Embora não seja consenso, eu particularmente acho as pastas da Oral-B muito “gostosas”, deixam um gosto mentolado na boca que me agrada muito. Por isso, não resisti e resolvi experimentar, começando pela Cuidado da Gengiva, até por se tratar de um produto diferente daquele que havia me causado a reação adversa. Depois de 3 dias, adivinhem o que aconteceu? O mesmo. Mas mesmo assim, resolvi fechar 1 semana de uso contínuo, com 3 escovações diárias, pra confirmar e padronizar a “amostra”. Até porque a cobaia era eu mesma, WHATEVER. Crianças, NÃO FAÇAM ISSO EM CASA, ok?!

Bom, dessa vez não teve como deixar pra lá. Entrei em contato novamente e relatei os sintomas. Como eu já tinha aquele monte de perguntas em mãos, expliquei que aquele era meu segundo contato pela mesma razão e já enviei todas as perguntas respondidas, como pode ser visto abaixo (clique na imagem para ampliar), bem como as imagens de antes e depois que vocês veem neste post.

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A pergunta que eu mais ~~gostei~~ foi: “Procurou orientação médica”? Fiz questão de deixar claro que, sendo dentista, nem precisaria, e se precisasse, procuraria um colega. Mas vamos considerar que foi só uma forma “errônea” de se expressar, né Oral-B? 😉

No dia seguinte recebi o seguinte e-mail da P&G:

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Em resumo: “Nosso produto é sensacional e você é uma perebenta. Não use mais, sua trouxa!”. 😀

Gente, é claro que organismos diferentes reagem diferentemente quando expostos a certas substâncias. Aí resolvi pesquisar que substância poderia estar causando isso, independentemente dessas reações que eu apresentei serem resultado de uma “não adaptação pessoal”. Até porque, como eu disse à P&G no e-mail, ouvi relatos de reações similares tanto por parte de pacientes quanto de colegas. Portanto, estamos falando de várias “não adaptações pessoais”. Eu acho isso relevante!

Logo que aconteceu a primeira ~~alergia~~ em mim, conversei com uma pessoa que eu conheço e que trabalha junto à Oral-B e perguntei se havia relatos parecidos com o meu e, se sim, qual componente da fórmula dos cremes dentais Pró-Saúde estaria causando essas reações adversas. Essa pessoa me respondeu que SIM, que havia relatos similares, e que o nome da substância é: hexametafosfato de sódio (Na(n+2)PnO(3n+1)) O hexametafosfato de sódio (HMF) é o mesmo componente usado pelo creme dental Crest Pro-Health, que é famoso no exterior mas não é vendido aqui no Brasil (não que eu saiba). Como só a Oral-B tem a licença de uso dessa tecnologia patenteada em cremes dentais no nosso país, faz muito sentido que o componente “adverso” seja esse… sempre usei Colgate e nunca tive nenhuma ~~alergia~~. Segundo o que li a respeito, o HMF em cremes dentais é útil na remoção de manchas extrínsecas de esmalte e tem a propriedade de transformar o cálculo dental em uma forma solúvel de cálcio. É muito usado em rações para cães, porque 9 entre 10 cães AINDA não usam cremes dentais da Oral-B :D. Só pra ficar clara a ação do HMF:

  • Ação quelante sobre o cálcio: quela e remove parcialmente o cálcio presente na saliva, para que não haja a formação do cálculo. Também, se une à superfície do dente, deixando-o como se estivesse recoberto por uma camada de teflon.
    .
  • Proporciona a desnaturação e o rompimento das proteínas constituintes da matriz da placa bacteriana, promovendo a solubilização das manchas.
    .
  • O HMF, na concentração normalmente encontrada nos dentifrícios, quando não completamente dissolvido, atua como um abrasivo ~~suave~~.

Pra não ficar no “achismo” e pra saber se a hipótese tinha fundamento, mandei mais um e-mail para a P&G e fiz a mesma pergunta que eu já havia feito ao meu “conhecido”. Reiterei que sou dentista e que as reações que relatei já havia ouvido antes, tanto de pacientes quanto de colegas:

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A resposta deles? Exatamente o mesmo e-mail que haviam me mandado antes, “não adaptação pessoal” e bla blá blá ZZZzzzZZZzzzzzZZZzZZZZzzzzzz…

Enfim… independentemente de qual componente químico seja o vilão da história (se é que isso procede), os cremes dentais da Oral-B costumam ser bastante abrasivos. A abrasividade de uma pasta de dentes é dada por duas escalas chamadas REA (Relative Enamel Abrasivity, abrasividade com relação ao esmalte) e RDA (Relative Dentine Abrasivity, abrasividade com relação à dentina), e essas escalas nem sempre correspondem entre si (uma pasta de dentes que tem RDA alto não tem necessariamente um REA alto). Eu procurei e não consegui descobrir quais são os REA e RDA dos cremes dentais da família Pró-Saúde, mas a ADA (American Dental Association) preconiza que um dentifrício com RDA abaixo de 250 pode ser considerado seguro. Já a FDA (Food and Drugs Administration) considera como seguros dentifrícios com valores de RDA abaixo de 200.

Minha chateação fica por conta de não poder usar mais os cremes dentais da Oral-B que, como eu disse, acho “gostosos” e por ter sido tratada pelo SAC como usuária comum. Não sou melhor do que qualquer outro cliente da Oral-B mas, por ser dentista, imaginei que falariam de “igual pra igual” comigo, entretanto percebi que entrar ou não entrar em contato com o o SAC deles não faz diferença nenhuma: a “culpa” vai ser sempre do cliente “não adaptado” aos seus produtos.

Você paciente ou colega dentista que já teve as reações adversas que eu relatei, poderia por favor manifestar-se nos comentários? Quem sabe assim a P&G perceba que tem muita gente por aí com problemas de adaptação aos seus produtos.

UPDATE

O pessoal da Oral-B entrou em contato e a Ludmila (Relações Comerciais na região sul do Brasil) e a Talita estiveram no meu consultório pra conversar comigo. Agradeço a atenção de ambas, que se desculparam pelo atendimento equivocado do SAC da P&G e se colocaram à disposição para tirar as minhas dúvidas com relação à formulação e efeitos adversos dos cremes dentais da linha Pró-Saúde. Aí sim, hein?! 🙂

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