Autor: Ana Tokus

  • Senadores pedem reembolso de mais de R$ 70 mil por tratamentos dentários

    Senadores pedem reembolso de mais de R$ 70 mil por tratamentos dentários

    Reembolso de tratamento dentário dos senadoresO plano de saúde do Senado, bancado exclusivamente pelo contribuinte ( = eu e você), paga todas as despesas médicas e odontológicas dos senhores senadores. Alguns senadores, como o ex-presidente “impichado” Fernando Collor, chegam a gastar mais de R$ 70 mil por tratamento dentário.

    Nos últimos cinco anos o Senado autorizou tratamentos odontológicos com valores altíssimos, tudo sem fazer perícia física dos pacientes nem definir limites de cobertura. Os gastos com os dentes dos senadores e outros tratamentos médicos, como sessões de psicoterapia e fonoaudiologia, atingiram média de R$ 6,2 milhões anuais entre 2008 e 2012 – 62% desses valores dizem respeito unicamente ao reembolso de notas fiscais e recibos.

    Igualzinho ao SUS, o plano de saúde do Senado é vitalício e se estende a ex-senadores e dependentes como filhos, enteados e cônjuges. Para usufruir dele, o parlamentar não precisa contribuir… só ser senador por 180 dias (não, não precisa bater ponto, também). Se o senador morre, o cônjuge continua usando a carteirinha. Como não há uma lista detalhada de procedimentos cobertos, os beneficiários se sentem à vontade para incluir em seus gastos todo tipo de serviço especializado.

    O limite anual seria de R$ 25,9 mil para gastos odontológicos, mas documentos obtidos pelo Estadão mostram que a ~flexibilidade~ é grande, basta invadir a cota não utilizada de outros anos e tá tudo bem! O que geralmente aumenta o gasto com Odontologia é o uso de materiais protéticos mais caros, coisa que os convênios odontológicos “normais” não costumam cobrir. Mas nós não estamos falando de planos de saúde / convênios “normais”, não é mesmo? É coisa bem mais chic.

    Exemplo: Pedro Simon (PMDB-RS) conseguiu ressarcimento de implantes dentários que totalizaram R$ 62,7 mil em 2012. “Fiz para aquele ano e com pedaço (da cota) do ano seguinte, em duas parcelas”, explica o senador gaúcho. “Digo mais: foi feito a esse preço porque chorei, chorei e foi um preço bem menor. O valor inicial era coisa de R$ 80 mil a R$ 85 mil.”. O povo agradece, senador.

    Em ação civil pública em tramitação na Justiça Federal, o Ministério Público, ao analisar os gastos efetuados até 2010, considerou que os “desembolsos envolvem valores exorbitantes, que fogem a qualquer padrão”.

    Sabe qual a única semelhança entre o plano de saúde do Senado e o SUS? O contribuinte é que banca os 2. Esse país realmente não é sério…

    via Estadão


  • O Valor da Consulta

    O Valor da Consulta

    Disse o presidente do CRO-SC, Élito Araújo, ao Diário Catarinense:

    O valor da consulta

    Falou e disse, presidente! A opinião certamente foi dada em resposta à recente polêmica envolvendo o colunista Cacau Menezes e seu conceito de “consulta entre aspas”…


  • Enxaguante bucal causa câncer?

    Enxaguante bucal causa câncer?

    Enxaguante bucalUma pesquisa publicada em um jornal científico da Austrália afirma que o álcool presente nos enxaguantes bucais pode aumentar a chance do desenvolvimento de um câncer bucal. Segundo o estudo, o álcool (etanol) facilita que substâncias cancerígenas como o acetaldeído entrem em contato com o tecido bucal. Outra pesquisa feita pela Universidade de São Paulo também chegou a essa conclusão, pois o álcool pode alterar material genético.

    Em resumo: antisséptico bucal não é pra ser usado a toda hora como as empresas que vendem produtos de higiene bucal querem que você acredite, contendo álcool ou não. Tem motivo, tipo e frequência certa pra isso, e só quem pode determinar essas variáveis, especificamente para o seu caso, é o seu dentista. A maioria das pessoas, na verdade, nem precisa de enxaguante bucal.

    Enfim, essas são pesquisas, mas ainda não há um consenso a respeito… continua-se estudando os enxaguantes bucais e seus efeitos. E quanto àquela máxima quando mais ardido melhor, pode estar certo: é conselho de tia velha. 😉

    Fonte: Super Interessante


  • Quanto ganha um Dentista?

    Quanto ganha um Dentista?

    A Catho Online, empresa de classificados online de currículos, realizou uma pesquisa que traz a média salarial de profissionais de diversas áreas da saúde. Para a Odontologia o resultado foi o seguinte:

    Dentista

    Cargo: Cirurgião-Dentista (*)
    Média salarial: R$ 4.591,48

    Cargo: Dentista (*) (4 horas/dia)
    Média salarial: R$ 2.268,50

    Cargo: Dentista Auditor (4 horas/dia)
    Média salarial: R$ 3.740,82

    Cargo: Técnico em Prótese Dentária (TPD)
    Média salarial: R$ 1.753,10

    Cargo: Técnico em Saúde Bucal (TSB)
    Média salarial: R$ 1.230,91

    Cargo: Auxiliar em Saúde Bucal (ASB)
    Média salarial: R$ 915,32

    Metodologia:

    O estudo é atualizado a cada três meses e traz dados de mais de 1.800 cargos, de 218 áreas de atuação profissional e de 48 ramos de atividade econômica, dentro de 21 regiões geográficas do Brasil, além de 7 faixas de faturamento para classificação de porte de empresa.

    Lembrando que esses dados são fonte de uma pesquisa, e podem, claro, ser muito diferentes da sua realidade.

    (*) Em “cirurgião-dentista” entenda “o dentista que trabalha com cirurgia”. Afinal de contas, oficialmente, cirurgião-dentista é todo aquele com formação superior em Odontologia, não é mesmo? 😉

    Fonte: Catho Online


  • O Ato Médico e o Dentista

    O Ato Médico e o Dentista

    Foi aprovado no Senado, no dia 18/06/13, o Ato Médico, o PLS 268/02. O Ato Médico dispõe sobre o exercício da Medicina, portanto  regulamenta o que é e o que não é competência do profissional médico, além de apontar para algumas atividades que são privativas dessa categoria. Ou seja, é uma normatização feita por médicos para médicos, já que até agora não existia algo do gênero (diferentemente das demais categorias profissionais da área da saúde). Até aí, tudo bem.

    Você pode E DEVE  ler a proposta na íntegra. Sério, leia.

    Sendo este lindo blog rosa um blog de Odontologia, a pergunta óbvia é: como o cirurgião-dentista é afetado pelo Ato Médico? Segundo o seguinte trecho do documento, não é.

    Ato Médico

    § 6º O disposto neste artigo não se aplica ao exercício da Odontologia, no âmbito de sua área de atuação.

    E convenhamos, uma série de normas que se aplica a médicos não poderia cercear o direito de atuação de dentistas! Segundo a opinião de uma advogada, amiga minha, assunto encerrado. Qualquer artigo que gere dúvida no texto do Ato Médico não interfere na atuação do dentista, e o próprio texto prevê isso. A lei que regulamenta o exercício da Odontologia (o Ato Odontológico, digamos assim) é a Lei 5081/66. Lá está determinado o que é “âmbito de sua área de atuação”.

    Mas para outras categorias não é assim tão óbvio. Os principais pontos polêmicos são:

    Pontos Polêmicos do Ato Médico
    1. Diagnósticos de doenças: o projeto estabelecia como privativo dos médicos diagnosticar doenças, o diagnóstico nosológico. Porém, psicólogos e nutricionistas reivindicam o direito de também atestar as condições de saúde em aspectos psicológicos e nutricionais. Já fisioterapeutas e fonoaudiólogos querem ser responsáveis pelo diagnóstico funcional, que avalia a capacidade do paciente de realizar movimentos, articular sons, entre outros. No texto final, o relator Antônio Carlos Valadares manteve como privativa dos médicos a formulação de diagnóstico nosológico, para determinar a doença, mas retirou essa exclusividade para diagnósticos funcional, psicológico e nutricional, além de avaliação comportamental, sensorial, de capacidade mental e cognitiva.
      .
    2. Assistência ventilatória mecânica ao paciente: o texto original estabelece como tarefa exclusiva dos médicos a definição da estratégia para pacientes com dificuldade respiratória (intubação acoplada a equipamento que bombeia ar aos pulmões) e a forma de encerrar o procedimento. Os fisioterapeutas questionaram a norma, alegando que também atuam no atendimento a pacientes com dificuldade respiratória, principalmente em UTIs. O relator acolheu emenda da Câmara que atribui aos médicos a coordenação da estratégia ventilatória inicial e do programa de interrupção, assegurando a participação de fisioterapeutas no processo.
      .
    3. Biópsias e citologia: uma emenda aprovada na Câmara limita aos médicos a emissão de diagnósticos de anatomia patológica e de citopatologia, mas biomédicos e farmacêuticos argumentam que a medida fere sua liberdade de atuação profissional, uma vez que análises laboratoriais requerem interpretação do material colhido e não diagnóstico médico.
      .
    4. Procedimentos invasivos: o projeto previa como exclusivo dos profissionais médicos os procedimentos invasivos, sejam diagnósticos, terapêuticos ou estéticos (acessos vasculares profundos, biópsias, endoscopia), o que inclui a invasão da pele atingindo o tecido subcutâneo da pele para injeção. Os acupunturistas e tatuadores (que embora não sejam profissionais da saúde se veem diretamente implicados na norma) temem enfrentar restrição em seu campo de atuação por conta da interpretação de conceito de procedimento invasivo. O relator manteve a norma em seu relatório, mas retirou da lista de atribuições exclusivas dos médicos a aplicação de injeções subcutâneas, intradérmica, intramusculares e intravenosas, apesar de a recomendação de medicamentos a serem aplicados por injeção continuar sendo uma prerrogativa médica.
      .
    5. Direção e chefia: pelo texto em análise, apenas médicos podem ocupar cargos de direção e chefia de serviços médicos. No entanto, a direção administrativa de serviços de saúde fica aberta também a outros profissionais. Todas as categorias que atuam no setor (inclusive os dentistas, e provavelmente aí os mais atingidos são os cirurgiões bucomaxilofaciais que atuam em ambiente hospitalar) consideram a norma um desrespeito aos outros profissionais que atuam nos serviços de saúde. O argumento é que o atendimento é feito por uma equipe multidisciplinar, não havendo justificativa para que apenas uma categoria tenha a prerrogativa de direção e chefia na unidade de saúde. E o relator manteve o texto intacto.

    Enfim, de forma geral achei justas as reivindicações dos outros profissionais da área da saúde quanto à mudança do texto pois, convenhamos, pela proposta original não sobrava nada pra ninguém. E o quinto “ponto polêmico” aí de cima é BEM safadjeeeenho.

    Informativos como o visto abaixo têm circulado por aí:

    Informativo sobre o Ato Médico
    Informativo sobre o Ato Médico (clique pra ampliar)

    Realmente, é preciso pensar em todas as implicações da aprovação final do Ato Médico.

    Nessa cartilha elaborada pela Sociedade Brasileira de Patologia você pode ver cada artigo do Ato Médico explicado de forma individual. Claro, senso crítico é fundamental, pois segundo a cartilha é inconcebível que alguém seja contra o documento. Menos, né?! 😉

    O Blog Vida de Dentista fala sobre o Ato Médico aqui

    O Blog DicasOdonto fala sobre o Ato Médico aqui

    E o Blog do Dentista fala sobre o Ato Médico aqui

    A posição do CFO a respeito você lê aqui

    Ainda: O Ministro da Saúde Alexandre Padilha diz que vai analisar o texto do Ato Médico

    UPDATE EM 11/07/13: a presidente Dilma Rousseff acaba de sancionar o Ato Médico, com 10 vetos. Veja no Diário Oficial da União. Abaixo, os pontos vetados:

     PONTOS VETADOS 

    Art. 4º São atividades privativas do médico:

    I – formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica; VETADO

    VIII – emissão de laudo dos exames endoscópios e de imagem, dos procedimentos diagnósticos invasivos e dos exames anatomopatológicos; VETADO

    IX – indicação do uso de órteses e próteses, exceto as órteses de uso temporário; VETADO

    XIV –  (…)

    § 2º Não são privativos do médico os diagnósticos funcional, cinésio-funcional, psicológico, nutricional e ambiental, e as avaliações comportamental e das capacidades mental, sensorial e perceptocognitiva. VETADO

    § 4º Procedimentos invasivos, para os efeitos desta Lei, são os caracterizados por quaisquer das seguintes situações:

    I – invasão da epiderme e derme com o uso de produtos químicos ou abrasivos; VETADO

    II –  invasão da pele atingindo o tecido subcutâneo para injeção, sucção, punção, insuflação, drenagem, instilação ou enxertia, com ou sem o uso de agentes químicos ou físicos; VETADO

    § 5º Excetuam-se do rol de atividades privativas do médico:

    I – aplicação de injeções subcutâneas, intradérmicas, intramusculares e intravenosas, de acordo com a prescrição médica; VETADO

    II – cateterização nasofaringeana, orotraqueal, esofágica, gástrica, enteral, anal, vesical, e venosa periférica, de acordo com a prescrição médica; VETADO

    (…)

    IV – punções venosa e arterial periféricas, de acordo com a prescrição médica; VETADO

    Art. 5º São privativos de médico:

    I – direção e chefia de serviços médicos; VETADO

    E você, acha o quê? Concorda, discorda ou muito pelo contrário :P? Dê a sua opinião nos comentários.


  • Enfim, Radiologista!

    Enfim, Radiologista!

    Na semana passada concluí minha especialização em Radiologia Odontológica e Imaginologia. Finalmente tenho visão de Raios X ;)! Gostaria de compartilhar com vocês meu discurso, como oradora da turma: 

    Finalmente o dia chegou, e estou certa que vocês vão concordar comigo: o tempo voa. Em novembro de 2011 nos encontramos pela primeira vez, ainda na antiga salinha de Radiologia da ABO, pra então começarmos a explorar um mundo novo, colorido em tons de cinza. Não os tons de cinza que andam na moda, que fique claro. 😉

    A partir daquele dia começamos a enxergar radiografias e tomografias com outros olhos… os olhos de quem, espera-se, precisa entender delas. Não só das informações que as imagens trazem, mas de como obtê-las com excelência. E o mais importante: do ser humano que está impresso na película. Sim, nossos pacientes não são exames de imagem… eles são pessoas. E aí surge uma dificuldade inerente à nossa especialidade: muitas vezes não somos informados sobre dados clínicos, anamnese e etc., o que pode tornar a nossa realidade bastante angustiante. Bom, ninguém disse que ser radiologista era fácil!

    Radiologia

    Se pacientes são pessoas, é essencial ressaltar a importância de considerarmos o paciente mais do que uma imagem: gostaria de contar uma pequena história, o relato de um dentista que foi publicado há alguns anos no New York Times.

    * * *

    Foi a primeira vez que me encontrei com Cynthia. Ela estava impecavelmente vestida num terno azul com um discreto broche no colarinho – uma mulher que claramente cuidava de si mesma. Ela disse que apenas queria uma limpeza dentária e veio ao meu consultório porque precisava trocar o dentista que havia frequentado regularmente por 10 anos. Como parte da conversa padrão com novos pacientes fiz várias perguntas e expliquei a necessidade de uma avaliação adequada, incluindo radiografias.

    Ela foi bastante clara, segundo me recordo: Raios X? De jeito nenhum!

    Em 28 anos de prática geral, eu havia presenciado a gama completa de reações à cadeira do dentista. A experiência pessoal tem um grande papel. Assim como as histórias de amigos e familiares, e as piadas do tipo eu preferiria fazer um tratamento de canal a me submeter a tal coisa. A internet pode fornecer conhecimento suficiente para ser perigoso, como diz o clichê, e o medo irracional que muitas vezes acompanha uma visita ao dentista dá às pessoas a motivação para serem insistentes, até mesmo desafiadoras, em relação a um tratamento que pode não ser apropriado.

    Se eu faço o que eles querem, me arrisco a deixar algo passar ou tomar decisões erradas de tratamento. Se fizer o que é certo, me arrisco a perder um paciente que precisa de ajuda.

    Expliquei à Cynthia minha filosofia de que, para um dentista ver um novo paciente, um exame completo é a base de um bom tratamento. Perguntei quando ela havia tirado radiografias dentais pela última vez. Ela me olhou suspeitosamente e disse: Me lembro perfeitamente porque foi um dia antes do 11 de setembro.  Três anos atrás! – exclamei – Acho que você está devendo.

    Aquilo não foi o suficiente pra Cynthia. Falamos mais 15 minutos sobre Raios X,  os sistemas modernos e digitais, a quantidade mínima de radiação à qual ela seria exposta, a natureza rápida e indolor da coisa toda. Eu só quero meus dentes limpos, implorou ela.

    Era realmente incompreensível. Aqui estava uma pessoa instruída, que sabia ter um problema (ela relatava mau hálito) e não queria nem mesmo considerar o nível mais básico de tratamento.

    Eu não queria perdê-la como paciente, mas não podia ceder.  Disse a ela que não podia ignorar a possibilidade de doenças ocultas. Para tratá-la, eu precisava de radiografias.  Certo, ela disse, finalmente. Faça os seus malditos Raios X!

    E foi feito o tratamento. Como descobrimos, seu mau hálito era causado por cáries grandes entre dois dentes.

    Foi somente após a finalização do tratamento que Cynthia me confidenciou a razão pela qual havia lutado tanto contra os Raios X. Sua mãe, disse ela, havia morrido de câncer, causado, supostamente, por um tratamento radioterápico feito ainda na infância.

    Conversamos de novo sobre radiação, e a diferença entre doses de radiação diagnóstica e terapêutica. No início dos anos 50 – eu contei a ela – as doses eram centenas de milhares de vezes as utilizadas hoje; ainda não havia provas suficientes dos perigos da radiação.

    Cynthia acabou aceitando a ideia de que os Raios X são uma ferramenta útil e segura. E eu fui lembrado de que, numa profissão onde a apreensão é frequentemente o ponto inicial de um relacionamento profissional-paciente, o questionário padrão nunca irá fundo o suficiente. Perguntar sobre o uso do fio dental não levará embora os temores que apontam a eventos de 60 anos atrás. Em nossa psicologia de poltrona de dentista, esperamos eventualmente chegar a esse nível. Enquanto isso, seguimos limpando, abrindo cavidades e insistindo nos Raios X.

    * * *

    Essa história me fez pensar, além do aspecto humano, é claro, sobre a responsabilidade que temos, como profissionais de Radiologia, em informar. As pessoas têm medo dos Raios X! E pasmem: muitos dos nossos colegas, cirurgiões-dentistas, não conhecem nada muito além do aspecto técnico, de como “tirar” uma radiografia. No meu blog, num texto específico sobre o assunto, recebo diariamente pedidos de ajuda desesperados (mesmo) de leitoras com a história recorrente: Fiz radiografias no dentista e logo depois descobri que estava grávida… meu bebê vai nascer com problema?. Ainda: Sou dentista e faço radiografias periapicais diariamente, vou ter que parar de trabalhar? Não quero entrar no mérito da formação que as Faculdades e Universidades têm oferecido, mas esse tipo de pergunta, confesso, me intriga.

    No caso do leigo, a ansiedade é compreensível… não há obrigação nele de saber absolutamente nada de Radiologia. E é aí que nós entramos… orientando, protegendo, dissipando o medo e, por que não, ensinando. Porque o paciente que senta em nossas cadeiras temendo pelos efeitos nocivos dos “terríveis” Raios X é, muitas vezes, o mesmo que acha que não precisa usar protetor solar porque a pele acostuma. Mas se eu pudesse dar só um conselho sobre o futuro seria este: usem o filtro solar! 😉

    Não se enganem, colegas… a nossa vida não vai ser fácil. As pessoas não esperam, apenas, que “entendamos de Raios X”. Elas esperam que os dominemos, e até mais: que tenhamos visão de Raios X. Não será incomum nas nossas vidas que surjam colegas e pacientes com radiografias em mãos querendo um parecer nosso: O que é que é isso aqui???. E em meio a várias sugestões eles se irritem: Puxa vida, decida!. E aí, pacientemente iremos explicar que imagens não decidem nada, que elas são um auxílio, mas não fecham diagnóstico. Então, ainda por cima, teremos que ouvir a recorrente piadinha: bom é ser radiologista, que não precisa ter certeza de nada! Mas não se aflijam… é pura inveja. 😀

    Enfim, mais uma etapa concluída. Agora somos especialistas e sabemos TUDO sobre Radiologia, certo? Quem dera. É agora que o trabalho começa e o estudo não para. Independentemente do rumo que as nossas vidas tomem a partir desse momento, o “bichinho” da Radiologia Odontológica nos mordeu. Nunca mais veremos uma radiografia com os mesmos olhos. Ainda bem.

    Muito obrigada.


  • Autópsia Virtual em Odontologia

    Autópsia Virtual em Odontologia

    Depois que a Diva Marjorie Lanzarin foi convidada para ser ortodontista de defunto, achei pertinente abordar aqui no blog um assunto que é novidade, principalmente aqui no Brasil: autópsia virtual. Tive uma excelente aula sobre o assunto na especialização em Radiologia Odontológica e Imaginologia (que encerro neste mês \o/), e gostaria de compartilhar um pouco do que eu aprendi. Além disso, muito tem se falado sobre o tema depois que os corpos de 3 membros da família imperial brasileira – Dom Pedro I, sua primeira esposa, Dona Leopoldina e a segunda esposa, Dona Amélia –  foram exumados e submetidos a análises físicas, químicas e a exames de imagem na Faculdade de Medicina da USP.

    Exumação dos corpos dos membros da família imperial do Brasil
    Exumação dos corpos dos membros da família imperial do Brasil

    Aí você deve estar pensando: mas o que é que dentista tem a ver com autópsia? Bom, se você está pensando nisso, é porque nunca assistiu CSI :D. O interesse desse tipo de autópsia (e da convencional, também) está na identificação de corpos, através de registros clínicos, radiográficos e fotográficos, fazendo-se uma comparação ante e post mortem (Projeto iDent-X). Para isso, exige-se 2 odontolegistas que farão seus relatórios buscando concordância entre os dados encontrados. Essas informações são cadastradas no Plass Data, que é o sistema oficial da Interpol pra inserção desse tipo de dados. A partir daí, busca-se identificar o morto. Isso tudo só está disponível em alguns países da Europa, por enquanto.

    E como é feito? Basicamente, o corpo é submetido a exames de imagem e reconstruído em 3D. A ressonância magnética reconstitui os tecidos moles e a tomografia, os tecidos duros. É usado, então, um scanner 3D pra associar o corpo com o conteúdo dele, que foi obtido por meio dos exames citados. Quando há a necessidade de coletar amostras, um braço robótico seleciona uma agulha cortante que remove a amostra do tecido que se deseja examinar… não há qualquer contato direto entre o médico/dentista legista e o cadáver.

    Vantagens:

    • 1 operador apenas
    • Uso de fotogrametria + escaneamento de superfície
    • O cadáver pode permanecer na bolsa
    • Armazenamento em formato DICOM (padrão em Medicina)
    • Transferência de dados facilitada
    • Alta efetividade

    Limitações:

    • O software tem que diferenciar muito bem cores e texturas, e um software que faça isso custa MUITO caro.
    • Não se obtém dados como sons e cheiros, algo que só um legista, de forma presencial, poderia obter. E, às vezes, essas informações são fundamentais.

    A autópsia virtual surge como uma nova alternativa e uma boa opção na identificação de cadáveres carbonizados, putrefados e na antropologia forense. Muitas vezes a família do morto se opõe a uma autópsia convencional porque acredita que esse tipo de procedimento é um desrespeito à memória do seu ente querido. Dessa forma, a ideia da autópsia virtual é se fazer uma autópsia não-invasiva, objetiva, inovadora, tecnológica e detalhada.

    Ah, prefere-se o termo autópsia a necrópsia, embora ambos possam ser usados. Essa preferência tem a ver com a origem dessas palavras… autópsia vem de autos = a si mesmo + opsomei = observar. Isso lembra o médico/dentista que realiza a autópsia que ele está “observando seu semelhante”, portanto todo respeito é exigido. Legal, né?! 🙂

    Mais informações sobre o assunto: 

    Projeto Virtopsy

    Artigo: Virtual autopsy in forensic sciences and its applications in the forense odontology (de Ademir Franco et al., que foi quem me deu essa aula. Muito obrigada!)


  • Enxaguante bucal é coisa séria!

    Enxaguante bucal é coisa séria!

    Dia desses você viu aqui no blog o Jimmy Eduardo mostrando todo o seu talento nasal com um vidro de Listerine. ~JÊNIO~. O uso inusitado do enxaguatório me fez pensar na forma indiscriminada como as pessoas usam enxaguantes bucais por aí… em sua maioria, influenciadas pelos comerciais na TV que afirmam categoricamente que sem o tal bochecho não há higiene bucal completa (isso com o número do CRO de algum dentista que ganhou cachê, bem no cantinho, corroborando essa informação). Mas olha… isso, além de não ser verdade, É MENTIRA :P. Assista uma reportagem muito esclarecedora sobre o tema:

    Embora sejam vendidos sem qualquer tipo de controle, em qualquer farmácia, enxaguantes bucais só devem ser usados com indicação e prescrição do seu cirurgião-dentista. Não interessa o que o comercial na TV disse pra você… enxaguante bucal é coisa séria e não deve ser usado de forma contínua! #ficaadica

    Outros posts que esclarecem o assunto:

    Bochechos: 5 razões para não utilizá-los sem indicação

    Bochechos: quanto mais forte, melhor. Verdade ou mito?


  • Identidade pelo Exame Odontológico

    Identidade pelo Exame Odontológico

    A Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado aprovou o Projeto de Lei 4731/09, da deputada Luciana Costa (PR-SP), que cria a identidade odontológica. A identidade odontológica consiste no odontograma completo do paciente, e seria útil na na identificação póstuma, em caso de falecimento. Os dentistas ficam obrigados a fornecer a tal identidade a aeronautas, policiais civis e militares, bombeiros civis e militares, integrantes das Forças Armadas e outras categorias afins. Para esses pacientes, haverá a obrigação, a partir da aprovação da lei, da realização de odontograma completo, e não apenas dos dentes que estiverem em tratamento. Da mesma forma, o paciente tem direito a uma cópia gratuita da identidade.

    Identidade. Agora, odontológica.

    Os demais pacientes (que não se enquadram nas categorias citadas) também terão direito a uma cópia do odontograma completo, mas apenas se o dentista o realizou, o que não é obrigatório. As cópias fornecidas aos pacientes deverão ser assinadas e datadas, e deverão conter as mesmas informações do original guardado em prontuário.

    O relator da proposta, deputado José Genoíno (PT-SP) gente finíssima, justificou o projeto de lei com a dificuldade que os parentes de vítimas de acidentes aéreos têm em levantar registros para identificar seus parentes. “Muitas vezes, a identificação de corpos é dificultada pela ausência de padrões a serem comparados. Um dos padrões mais seguros é a arcada dentária, considerada a parte do corpo mais resistente à decomposição e às altas temperaturas”, explicou.

    O projeto tramita em  caráter conclusivo e ainda será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

    Será que dá pra cobrar a consulta, pelo menos? 😉

    Vi no Facebook


  • Clareamento Dentário Que Dispensa Dentista

    Clareamento Dentário Que Dispensa Dentista

    Se você não é dentista, esse texto pode interessar.

    A Oral-B trouxe para o Brasil o sistema clareador 3D White/Whitestrips, você com certeza já viu a Gisele Bündchen falando dele (USANDO não, mas deixa pra lá). São tirinhas que contém peróxido de hidrogênio e que prometem dentes mais brancos em 3 dias e um clareamento em “3 dimensões” (seja lá o que isso queira dizer).

    Vi alguns colegas se manifestando no Facebook e no Twitter veementemente contra a venda do produto diretamente ao consumidor. Outros, clamando o socorro do CRO, do CFO e do ó do borogodó. Outros, ainda, evocando o CEO (Código de Ética Odontológica) como se ele de alguma forma proibisse esse tipo de produto. Não, não proíbe.

    O buraco é mais embaixo.

    Como eu disse, essas tirinhas só são novidade no Brasil. Lá nos EUA elas existem há muito tempo e são vendidas sem problema algum (aliás, a Johnson & Johnson também lançou coisa parecida com a marca Listerine, uma fitas dissolvíveis que, me parece, não foram vendidas por aqui). Só que lá a marca é Crest, mas até a embalagem é igual:

    Crest e Oral-B Whitestrips: embalagens

    O produto é vendido numa boa tanto lá quanto aqui por um motivo simples: ele é considerado cosmético (assim como as pastas de dente). Ou seja, não adianta a gente espernear e exigir que alguma entidade de classe faça alguma coisa a respeito… o máximo que se vai conseguir é uma “nota de repúdio oficial” em alguma publicação da área. E só. Até porque, os Conselhos Regionais e o Conselho Federal de Odontologia (assim como o CEO) são órgãos que servem para fiscalizar a atividade da profissão, e não para questionar a venda de “cosméticos”.

    Quando uma empresa multinacional lança um produto num país, esse lançamento é precedido por uma ampla pesquisa de mercado. Vejam o print screen abaixo de uma pergunta do Yahoo! Respostas respondida há 5 anos. A P&G (fabricante) foi atrás de quem entende quando precisou de uma opinião técnica. Eles sabem que o Brasil é um país ávido por estética, procrastinador com relação à saúde e doido pra economizar uma graninha. Sinceramente? Eles acertaram NA MOSCA quando lançaram o produto aqui: ele funciona (porque contém o agente clareador), evita a “inconveniente” ida ao dentista e custa R$ 69,90 (bem mais barato que um clareamento profissional). Tentei procurar pra comprar (porque a ideia inicial era testar em mim mesma) e não achei. Todos os estoques esgotados, isso tá vendendo que nem água no deserto!

    Isso há 5 anos!

    O que eu acho que muitos colegas não entenderam ainda é que a venda do Oral-B Whitestrips não tem NADA a ver com a gente. Esse é um produto que dispensa o dentista desde a sua concepção. A ideia é vender direto para o paciente e “eliminar o atravessador”, ou seja, eu e você. Na embalagem, é claro, pra ficar bonitinho, está escrito que é indicado o acompanhamento de um dentista. Mas vende no mercado, gente! Pra que dentista? E o fabricante sabe disso.

    Kit 3D White/Whitestrips

    Pergunto: você, colega, recebeu da Oral-B uma amostra do produto para experimentar? Respondo eu mesma: não. Uma colega me contou que chegou a pedir para uma representante e a mesma informou que esse produto “não tem amostras grátis para dentistas”. Aí, durante as minhas buscas sobre o assunto pelo Google, descobri vários blogueiros de moda / beleza / maquiagem / comportamento etc., formadores de opinião, testando o produto. Cada um deles recebeu 2 embalagens promocionais (uma para si e a outra para sortear entre os leitores do blog). O mimo consiste em uma maleta de acrílico transparente (chiquérrima) contendo os produtos da linha 3D White/Whitestrips e até um pen drive personalizado com informações sobre o produto.

    Entenderam o que está acontecendo? Há 5 anos o dentista interessava para atestar que o produto funcionava “satisfatoriamente” mas, neste momento, o dentista não interessa como divulgador do produto, porque o produto serve exatamente para que as pessoas não precisem de um dentista para fazer um clareamento dentário. Num dos blogs que eu visitei, considerando o teor dos comentários, a Oral-B se posicionou da seguinte forma:

    “… o 3D Whitestrips já está no mercado dos EUA há mais de 7 anos e a segurança e eficácia do produto foram avaliadas em diversos estudos clínicos que mostraram que os resultados das fitas clareadoras podem ser percebidos já no terceiro dia de uso. Ainda assim, é bom lembrar que o mais importante é ter dentes saudáveis e, por isso, a Oral-B sempre indica o acompanhamento do dentista. Ele é o profissional que vai recomendar os produtos mais indicados para cada pessoa”.

    ~~Prezados~~ da Procter & Gamble, vocês furaram ozóio dos dentistas. Não me venham com essa demagogia de que “o dentista é o profissional que vai recomendar… blá blá blá”. Vocês lançaram um clareamento dentário que dispensa dentista, assumam isso e preparem-se: o SAC de vocês vai ferver. Espero que o sistema de atendimento já tenha melhorado, os usuários das whitestrips agradecem ;).

    A lição que fica é a seguinte: se você busca mesmo a valorização da Odontologia e da profissão de cirurgião-dentista, comece valorizando a si mesmo. As empresas de produtos de higiene bucal (entra aí a Colgate e demais) nos compram baratinho e nos usam como panfleteiros de luxo com suas amostrinhas grátis de pastas e escovas de dente. A gente “vende” os produtos deles quando os recomenda e não recebe nada por isso. E a “recompensa” é essa: na primeira oportunidade, eles se livram de você. De minha parte, há muito tempo não dou amostras e nem recomendo nenhuma marca de produtos de higiene bucal, em específico, aos meus pacientes. Tudo o que recebo uso em mim mesma ou simplesmente desprezo (leia-se “jogo no lixo”). E você, tem feito o quê?

    O DicasOdonto falou sobre isso também!